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História da Disfunção Erétil

 

A DISFUNÇÃO ERÉTIL AO LONGO DA HISTÓRIA

 

 

O homem é o único animal, entre todas as espécies, que tem a vantagem de poder realizar a cópula controlando a fecundação, sendo descendente do sexo e sendo a sexualidade o único garante da reprodução do tipo e da sociedade, os quais constituem a identidade da espécie e das suas populações (Moreira, 1999). Desta forma, a sexualidade e o ato sexual vieram criar perplexidade e dúvidas, levando à criação de mitos e preconceitos que se foram modelando ao longo da história.

Castigo ou punição para o adultério

Uma sucessão infindável de poções e prescrições, medicamentos e aparelhos, têm sido utilizados ao longo da História para suplantar o problema.

Estas descrições remontam a 2000 anos a.C.. Alguns papiros egípcios continham receitas específicas para curar a impotência sexual e raízes várias são descritas como cura para o mal da incapacidade erétil em tribos africanas (Rosen & Leiblum, 1992).

No passado, já as referências bíblicas à Disfunção Erétil a descreviam como uma forma de castigo ou punição para o adultério (Génesis, 20:3) ou ainda como sendo vítima de um malefício. 

Mais recentemente, o homem impotente passou a ser considerado como disfuncional. A realidade é que, vítima ou culpado, fica prisioneiro de uma patologia complexa, na qual se inter-relacionam fatores orgânicos, psicológicos e sociais (Moreira, 1999).

Foi na mitologia grega que, pela primeira vez, se reconheceram causas psicológicas para a Disfunção Erétil. Uma lenda grega retrata Iphiclus, um jovem que vê o pai aproximar-se com uma faca, pensando que a vai utilizar nele. O jovem desenvolve uma Disfunção Erétil crónica e esta legenda pode representar o primeiro registo da ansiedade de castração (Johnson, 1968).

Os primeiros registos sobre as atividades sexuais do homem foram encontrados em imagens desenhadas pelo homem, principalmente de mulheres (Zwang, 1984). A criação destas figuras destinava-se a exercer uma influência mágica na fertilidade humana. São famosas as vénus pré-históricas, silhuetas femininas de formas opulentas, datadas de 28 000 a.C. a 20 000 a.C. (Lucie-Smith, 1992). As figuras masculinas são mais raras, surgindo principalmente em gravuras e pinturas rupestres, como as de Altamira, em Espanha, e Lascaux, em França, cerca de 19 000 a.C. (Clottes, 1995).

DE SÍMBOLO DE FERTILIDADE A OBJETO DE PRAZER

Na pré-história a sociedade organizava-se em torno do matriarcado, em que a mulher representava um papel social e económico fundamental. Advém a génese do sedentarismo, surgindo figuras que representam a fertilidade da terra, a maternidade e a potência sexual, que passam a ser adoradas como objetos de culto.

Este facto justifica a presença de monumentos fálicos por todo o mundo (Brinot, 1994). Com a organização das civilizações urbanas do mundo antigo, o sexo perde o seu carácter místico, passa a ser mais controlado e surge a noção de prazer sexual. Instala-se o patriarcado (Nunes, 1987).

O pénis assume grande relevância, sendo adorado no Egipto e na Judeia sob o nome de Phallus, na Índia como Lingam, na Arábia como Dkeur e na Grécia como Priapus, símbolo da força e da fecundidade (Bacalhau, 1922). Na Babilónia e em Atenas, os genitais foram adorados, fizeram-se grandes manifestações em sua honra e construíram-se vários altares e lugares de culto a Phallus e a Priapus (Moreira, 1999), estando estes nomes na génese etimológica de diversa terminologia que hoje se utiliza, como é o caso do falácio ou do priapismo.

A "Balança de Phallus", um fresco existente no bordel Vetti, ilustra que pelo peso do pénis se pode avaliar a quantidade de sangue que enche os tecidos esponjosos. Foi provavelmente o primeiro método de avaliação da ereção (Brinot, 1994).

Bruxaria ou possessão demoníaca

Assim era considerada a Disfunção Erétil na Idade Média

Obsessão conduz aos primeiros afrodisíacos

No antigo Egito, a importância do pénis na sexualidade levava a que tivesse um tratamento especial no ato do embalsamento e que vários deuses apresentassem uma exuberante potência sexual, com destaque para Min, de falo permanentemente ereto (Cohen, 1995).

Já no Panteon romano, o deus Priapus tem o mesmo papel que o deus Min no Egito, sendo representado com o pénis ereto, por vezes envolto de frutos, como alusão à sua função de deus da fertilidade (Foucault, 1985).

Em todas as civilizações antigas foram criados inúmeros remédios para melhorar as incapacidades sexuais, sendo ilustrativo o Yajurveda, texto sagrado Indu, que recomendava a ingestão de tecidos testiculares contra a impotência sexual (Hoberman & Yesalis, 1995). Alguns, como o pó de corno de rinoceronte, adquiriram uma reputação que sobreveio ao longo dos tempos, contendo muitos dos afrodisíacos nos textos antigos, plantas e ervas (Moreira, 1999). O exemplo mais conhecido é o do ginseng, descoberto na China, considerado útil para melhorar a robustez e aumentar a potência sexual (Zwang, 1984).

Luís XVI e Napoleão fizeram história na Disfunção Erétil

Já na Idade Média, a Igreja atribuía a Disfunção Erétil aos efeitos de bruxaria ou possessão demoníaca, como se constata pela citação de Tomás de Aquino, "A fé católica ensina ambos que existem demónios e que pelos seus feitos, podem infligir injúrias no homem e impedir a cópula carnal" (cit. in Johnson, 1968, p. 5).

O potencial papel de determinantes físicos subjacentes na falha erétil foi identificado durante a idade do Iluminismo, sendo o caso de Luís XVI, rei de França entre 1774 e 1789, talvez o mais famoso. Retrata Luís, que casa aos 16 anos de idade com Maria Antonieta e, durante 7 anos, não consegue consumar o casamento, devido a "total impotência" (Hastings, 1963).

Após consultar várias autoridades da época, determinou-se que tinha o prepúcio excessivamente apertado, sendo subsequentemente circuncisado.

Este episódio ilustra a emergência do conceito de falha erétil como condição médica, opondo-se ao espiritual ou psicológico e pode representar a primeira tentativa cirúrgica para o tratamento da Disfunção Erétil (Rosen & Leiblum, 1992).
 

O papel dos fatores genéticos ou hormonais foi pela primeira vez reconhecido no século XIX. O caso de Napoleão Bonaparte é ilustrativo. Sabia-se que Napoleão tinha sofrido de uma doença endócrina desconhecida, que resultou numa Disfunção Erétil na meia-idade. No relatório da autópsia descrevia-se que os seus genitais "tinham grânulos na próstata, o pénis e os testículos eram muito pequenos e todo o sistema genital parecia exibir uma causa física para a ausência de desejo sexual e a castidade que caracterizava o falecido" (cit. In Johnson, 1968, p. 7).


In Livro "Disfunção Erétil Compreender e Tratar"
Abel Matos Santos e Jorge Rocha Mendes