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Ana Carvalheira

ANA CARVALHEIRA

PSICOTERAPEUTA
 

"Somos um todo"

 

A Professora Ana Carvalheira não tem dúvidas em afirmar que o impacto da parte psicológica numa disfunção sexual, como a Ejaculação Prematura por exemplo, é "muito grande". Isto porque, como explica, "nós somos um todo". A psicóloga advoga por isso uma abordagem holística do doente com disfunção sexual e considera "estupidamente redutor" o dualismo cartesiano que separa corpo e mente. "Nós temos um substrato biológico onde tudo acontece, incluindo os fenómenos psicológicos. Tudo é inseparável no nosso corpo. Eu não consigo trabalhar sem a ajuda dos médicos e o contrário também deveria ser verdade. Não podemos esquecer que a sexualidade é um fenómeno.

Como se caracteriza o desejo sexual masculino?

O desejo sexual masculino é bastante diferente do da mulher. Liderei um projeto de investigação envolvendo três países (Portugal, Croácia e Noruega) e 5 mil homens, sobre o interesse sexual masculino, cujos resultados trouxeram duas surpresas.1 Por um lado, percebemos que são os homens jovens (com idades entre os 30 e os 40 anos) que mais referem diminuição do desejo sexual e, por outro, as razões para tal são de facto surpreendentes. No topo da lista vem o stress profissional, em segundo lugar o cansaço e, em terceiro, questões relacionais (conflitos na relação, problemas com a parceira, etc.).

Outra situação em que é frequente o comportamento de fuga e evitamento sexual por parte do homem é quando este tem uma disfunção sexual. Recebe casos destes na sua consulta?

Sim. É por essa razão que devemos entender qualquer disfunção sexual como um problema do casal. Quando há uma Disfunção Erétil ou uma Ejaculação Prematura no homem, a mulher começa muitas vezes por sentir rejeição, porque ele passa a evitar o relacionamento sexual. A mulher tende a pensar que ele já não se sente atraído por ela e culpabiliza-se. Depois, a tendência é não falar sobre o assunto e o silêncio é uma bola de neve. Quanto menos o casal fala entre si pior.

São resultados de facto surpreendentes e preocupantes. Encontra esta realidade na sua prática clínica?

Sim. Cada vez tenho mais pacientes homens, jovens, com falta de desejo sexual. Verifico que aquilo que era sobretudo uma queixa feminina passou a ser também uma queixa dos homens, em alguns caso muito jovens (com cerca de 30 anos).

Outra realidade que tenho encontrado na clínica é um número cada vez maior de homens jovens, que manifestam falta de desejo sexual mas que passam horas na internet a consumir pornografia. Isto é preocupante, porque são homens que dizem não ter qualquer vontade de ter uma relação sexual com uma mulher. Há, portanto, uma certa alienação e uma fuga à intimidade, até porque o sexo no contexto de uma relação é mais exigente e traz outros desafios. Em alguns casos, o consumo de pornografia funciona como um escape, é uma forma de aliviar o stress. 

É, normalmente, apenas nesta fase que o casal procura ajuda especializada?

Sim, quando sente que já foi totalmente "esmagado" pela tal bola de neve de silêncio, dúvidas e culpabilidade é que por norma o casal vem pedir ajuda, até porque não é nada fácil vir aqui ao consultório e confrontar-se com o problema.

"As mulheres querem do seu parceiro uma infinidade de coisas ao mesmo tempo. Querem segurança e estabilidade, mas também querem aventura e novidade."

Realizou investigação sobre a adesão à terapêutica da Disfunção Erétil. Porque decidiu fazer este estudo?

Sempre achei que os fármacos para a Disfunção Erétil são muito importantes e constituem um bom instrumento terapêutico. Ora, sendo estes fármacos bons por que razão os homens desistem do tratamento? As taxas de descontinuação terapêutica são elevadas, acima dos 50%, e não conseguia perceber por que motivo os homens desistem do fármacos. Então, eu e o Prof. Nuno Monteiro Pereira analisámos um ficheiro de mais de mil doentes sob terapêutica com inibidores da PDE5 e entrevistámos 327 doentes. Perguntámos-lhes por que tinham deixado de tomar os comprimidos e percebemos que havia um conjunto de razões associadas.

Quais foram as principais conclusões?

Este estudo é importante porque deu informações clínicas muito relevantes. Este trabalho mostra que o momento de prescrição do fármacos é um momento importantíssimo, que não pode ser desperdiçado. No entanto, por vezes é, sobretudo quando não são tidas em conta outras variáveis que entram na equação, como os medos irracionais do doente, as preocupações com a segurança cardiovascular e outras afins.

Além dos medos e das preocupações em relação aos fármacos, há uma outra variável que tem de ser tida em conta no momento da prescrição – os aspetos psicológicos. Alguns doentes têm consciência do seu elevado grau de ansiedade ou nervosismo e sabem que isso influencia a performance sexual, por isso muitas vezes desistem da medicação achando que a questão é só psicológica e que podem resolvê-la sozinhos.

Fez também vários trabalhos de investigação e tem diversos artigos publicados sobre a sexualidade feminina, em particular sobre o desejo sexual feminino. O que destaca das conclusões a que chegou nessas pesquisas?

Aquilo que destaco em relação ao desejo sexual feminino é o seu caráter sensível. O desejo sexual das mulheres pode ir dos zero aos 100 em três segundos e dos 100 aos zero nos mesmos três segundos. 

Enquanto o desejo sexual dos homens é mais sólido e consistente, o desejo das mulheres é mais frágil, flutuante e multifatorial.

Isso pode ter a ver com questões sociais e culturais?

Em parte sim, porque de facto, na nossa cultura, as raparigas não são socializadas no sentido de perseguir o prazer sexual. As mulheres jovens são sujeitas a uma socialização muito mais repressiva em relação ao sexo do que os homens e portanto, quando chegam à idade adulta e se confrontam com a vontade de ter uma vida sexual, exercitaram pouco o seu desejo. E tudo começa a partir daí. A queixa mais comum que ouço, em cerca de 20 anos de prática clínica, vem das mulheres e está relacionada com falta de desejo sexual.
Por um lado, isto prende-se com essa socialização que não as ajudou a treinar o seu desejo sexual e, por outro, com as expectativas da mulher em relação ao seu parceiro, sobretudo em contexto de relações conjugais de longa duração. As mulheres querem do seu parceiro uma infinidade de coisas ao mesmo tempo. Querem segurança e estabilidade mas, simultaneamente, também querem aventura e novidade. Em suma, querem muitas coisas da mesma pessoa. E é muito difícil a conciliação da sexualidade "domesticada", no contexto do lar, das rotinas e do quotidiano, com as exigências eróticas da mulher. 

PERFIL

Ana Carvalheira

"Sou uma investigadora, uma professora e uma psicoterapeuta da sexualidade". É assim que Ana Carvalheira resume a sua intensa atividade profissonal, na qual se desdobra por várias áreas. Gosta de investigar e de dar aulas, mas é à clínica que vai buscar inspiração para tudo o resto. "É da clínica que me vêm as inquietações e as questões para a investigação; é com os doentes que eu aprendo", conta. Por isso, faz questão de frisar: "Sou muito mais clínica do que académica". Foi há muito tempo que a Professora se interessou pelo estudo das disfunções sexuais. Era então uma recém-licenciada em Psicologia e decidiu fazer o primeiro curso de pós-graduação da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC), por influência do Dr. Allen Gomes, que assume como o seu "mentor até hoje". Continua ligada à SPSC, sociedade da qual chegou a ser presidente. Doutorada em Psicologia da Sexualidade, tem dezenas de artigos científicos publicados, fruto da sua investigação nesta área, mas garante que fazer clínica "é o mais gratificante" e aquilo que nunca vai deixar de fazer.

"Quando há problemas [sexuais] orgânicos, remeto para um médico especialista e, em muitos casos, trabalhamos em conjunto."

Mesmo nesta fase consegue reverter e resolver algumas destas situações?

Sim, tenho sucesso terapêutico tanto em homens como em mulheres. Quando há problemas orgânicos, remeto para um médico especialista e, em muitos casos, trabalhamos em conjunto. Há uma dupla intervenção, a farmacológica feita pelo colega Urologista, e a psicoterapêutica, feita por mim. 

 

Esta dupla abordagem aplica-se por norma a casos de Disfunção Erétil ou de Ejaculação Prematura?

A ambos. No caso da Ejaculação Prematura o meu trabalho pode ser simples e resumir-se apenas a ajudar a pessoa a lidar com a ansiedade ou ir até questões mais complexas, como por exemplo no caso de personalidades depressivas ou de homens com ansiedade social. Nestes últimos casos, é necessária uma psicoterapia profunda e mais longa. Mas em todas estas situações é possível reverter o sintoma e curar a disfunção sexual.

 

 

Algumas pesquisas têm apontado para o impacto das disfunções sexuais no número de separações e divórcios. Concorda?

Claro que sim. Os problemas sexuais podem levar à ruptura do casal. O casal afunda porque começa por haver um afastamento e quanto mais tempo passa sem se resolver o problema mais os dois membros se afastam.

 

Quando trabalha este tipo de casos motivados por uma disfunção sexual costuma abordar os dois membros do casal em conjunto ou em separado?

A minha abordagem preferencial é com o casal, porque este é sempre um problema dos dois. Mas às vezes não é possível, ou porque não há parceira ou porque um dos membros do casal não está disposto a vir à consulta. 

"O momento da prescrição é importantíssimo, não pode ser desperdiçado"

Temos portanto mulheres muito exigentes, hoje em dia?

Sim, o erotismo da mulher precisa de quebrar rotinas, de alguma transgressão, de um espaço imaginário e de surpresas. Depois, é também um erotismo que requer muitas vezes um contexto emocional e que precisa de tempo. O erotismo feminino é em forma de narrativa, ou seja não pode começar imediatamente no ato sexual. A mulher precisa de ser ouvida, acarinhada, de receber alguns cuidados e atenções para se predispor para o sexo. O Erotismo masculino é menos elaborado, os homens podem ficar prontos para o sexo mais rapidamente.

O que é que diz às suas utentes que se queixam de falta de desejo sexual?

Explico-lhes que o desejo não surge do nada, porque algo que é muito frequente é as mulheres ficarem à espera que o desejo apareça, como que por magia. Acho que as mulheres têm de sair desse papel passivo e disponibilizarem-se mais para procurar o seu desejo sexual. As mulheres devem sentir-se mais responsáveis pelo seu próprio desejo sexual, essa não pode ser apenas uma responsabilidade dos maridos ou companheiros.