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Andrea Burri

ANDREA BURRI

PSICÓLOGA

 

É muito importante que as pessoas aprendam a comunicar e a falar sobre sexo e sobre a relação sexual

 

Andrea Burri, investigadora especializada em disfunções sexuais femininas, não tem dúvidas em afirmar que ainda sabemos muito pouco sobre a sexualidade da mulher. Mas uma coisa é certa: uma disfunção sexual provoca, em muitos casos, a separação do casal. Os resultados dos seus estudos têm surpreendido a comunidade científica.

Os seus trabalhos de investigação levam-na a concluir que existe de facto uma perturbação sexual na mulher, provocada pela disfunção sexual masculina, que ainda não é bem conhecida?

Sim, há sempre uma variação dentro do que é considerado normal, mas se, por exemplo, temos uma mulher que nunca consegue atingir o orgasmo, então estamos perante um problema. E se este problema é biológico, é o que estou a tentar perceber.

 

O que sabemos, neste momento, sobre a sexualidade feminina é ainda menos do que aquilo que sabemos acerca da sexualidade masculina?

Sim, sem dúvida. Ainda não sabemos quão individual é o processo da disfunção sexual feminina, se este é realmente biológico ou mais situacional. Em suma, as questões que se colocam para os homens também são válidas para as mulheres. O que os estudos nos mostram é que há mulheres que consideram Ejaculação Prematura algo que outras veem como normal. Este é sempre um processo dinâmico e também reflexo daquilo que a sociedade considera normal ou não.

Também se tem dedicado a estudar o impacto das disfunções sexuais no casal e nos relacionamentos conjugais. Como é que os primeiros resultados do seu estudo foram recebidos pela comunidade científica?

Neste momento, temos apenas resultados preliminares, estamos ainda muito no início e esperamos que este primeiro estudo possa gerar mais investigação, que nos permita ir mais além e conhecer em detalhe esta realidade. Muitas pessoas ficaram bastante surpreendidas, pois foi a primeira vez que um estudo nos mostrou que a separação de um casal não é apenas um momento de rutura. É antes um processo e muitas coisas levam a que a situação se altere; há a influência de vários fatores, pode começar com a insatisfação em relação ao sexo, haver a contaminação de outras áreas da relação e, no final, de toda a relação. O que este estudo nos mostra é que isto é real e que a frustração sexual está realmente associada ao fim dos relacionamentos conjugais. A surpresa residiu nesta realidade. Todos sabíamos que se há insatisfação sexual pode haver mais discussões e problemas no casal, mas não que as consequências eram estas e tão reais.

 

Estes resultados surpreenderam-na?

Não, já estava à espera porque era o que via nos casais com quem trabalhei. Percebia que, nos casais com problemas relacionais que me procuravam, a sexualidade estava sempre associada. É difícil dizer se o problema sexual é o "gatilho" da separação, mas é evidente que este está sempre presente.

Perfil

Andrea Burri

É psicóloga de formação, fez aconselhamento conjugal e sexual, mas preferiu a via da investigação. Atualmente é professora e investigadora, dividindo o seu tempo entre a Universidade de Zurique, na Suíça, e o King’s College, em Londres, no Reino Unido. Foi de resto nesta instituição britânica que se doutorou, com uma tese sobre epidemiologia e epidemiologia genética da disfunção sexual feminina. Nesta área, ainda nova, tem feito alguns estudos e descobertas importantes para o conhecimento da sexualidade feminina, trabalho que a levou já a proferir palestras em vários países e também a receber algumas distinções.

Andrea Burri é luso-suíça. Nasceu e cresceu na Suíça mas sente-se “metade portuguesa”; visita frequentemente Portugal e até tem planos para viver em Lisboa a médio prazo. Quando questionada sobre as diferenças entre as mulheres portuguesas e as mulheres suíças, na forma como encaram a vida sexual, responde: “Aqui, como na generalidade dos países mediterrâneos, as mulheres valorizam muito o seu lado feminino, o jogo da sedução e o namoro. Na Suíça, as pessoas são mais rígidas, focadas nos negócios e no trabalho e não valorizam tanto a interação nem a parte romântica do relacionamento sexual”.

É difícil dizer se o problema sexual é o ‘gatilho’ da separação, mas é evidente que este está sempre presente

Os seus estudos revelam também um nível de perturbação sexual nas parceiras de homens com disfunção sexual muito elevado. Este resultado também foi surpreendente?

Não, uma vez mais é intuitivo. As mulheres têm de estar perturbadas, porque há algo que não funciona como esperado. Todos temos esta imagem hollywoodesca na cabeça, do romance perfeito em que beijamos, temos sexo e é sempre fantástico. Nem sempre isso acontece. Penso que o importante não é este resultado em si, mas sim a razão para a frustração sexual feminina existir. O que este estudo nos mostra é que não é o facto de o homem ter Ejaculação Prematura que mais perturba a mulher, mas sim o facto de ele não se focar naquilo que ela deseja.

Percebemos, desta forma, que há dois conceitos de sexualidade muito distintos. Talvez devesse haver mais educação sexual, os homens deveriam saber mais sobre o que a mulher deseja e ambos deveriam aprender a comunicar melhor.

 

Considera então que todas as pessoas deveriam conhecer melhor a fisiologia do parceiro e informar-se mais acerca do que é o sexo e como este funciona no homem e na mulher?

Absolutamente. Penso que isso ajudaria muito as pessoas na sua vida quotidiana. Por outro lado, também é muito importante que as pessoas aprendam a comunicar e a falar sobre sexo e a relação sexual.

O sexo ainda é um tabu?

Sim, o sexo ainda é um tabu, mesmo no seio dos casais. Frequentemente as pessoas não falam do que gostam ou não gostam, por vezes até aceitam coisas que não apreciam porque acham que têm de gostar daquilo que o parceiro quer. A sexualidade não deve ser isso. Deve ser a procura de um denominador comum para que ambos desfrutem da relação.

 

Os novos medicamentos que hoje estão disponíveis para o tratamento de algumas disfunções sexuais podem ajudar a resolver estes problemas?

Sim, mas apenas se olharmos para o problema de forma holística. Há medicamentos que funcionam fisiologicamente, portanto melhoram de facto a função sexual; depois há fármacos que permitem à pessoa ficar mais relaxada e ter maior confiança, mas nesse caso é preciso trabalhar essa confiança e outros aspetos, pois somente ter mais confiança não elimina o problema. É preciso que os homens aproveitem a ajuda que os fármacos lhes dão, mas não esqueçam que não se podem focar demasiado na questão do tempo de ejaculação, têm de pensar também nos outros aspetos da relação que são importantes para a mulher. É isso que a mulher quer.

As pessoas estão cada vez mais pressionadas quanto à sua performance sexual e estão a esquecer aquilo que a sexualidade é realmente: instinto, algo natural

Acredita que as mudanças sociais a que temos assistido, que levaram à emancipação das mulheres, permitirão que as disfunções sexuais femininas comecem a ser vistas com outros olhos?

Penso que essa questão tem dois lados. É verdade que começamos a conhecer melhor a realidade da sexualidade e a ter um retrato mais real do que são as diferentes situações específicas que se enquadram neste tipo de disfunções, o que é positivo. Mas isto também poderá levar a uma maior pressão, na medida em que rapidamente as pessoas se começam a comparar com as outras e a querer igualar os padrões estereotipados. Os homens têm de ser superpotentes e estar sempre prontos, as mulheres têm de ter orgasmos múltiplos e ser superversáteis, porque é esta a imagem que os media transmitem da sexualidade.

Se virmos bem, as pessoas estão cada vez mais pressionadas quanto à sua performance sexual e estão a esquecer aquilo que a sexualidade é realmente: instinto, algo natural.

 

Então, na sua opinião, falar tanto sobre sexualidade e sexo, como hoje acontece, não é tão positivo como possa parecer…

Penso que essa realidade está a colocar muita pressão sobre as pessoas e a fazê-las perder o sentimento e a sensação que devem estar associados à sexualidade. O sexo é algo natural e a sexualidade deve ser sentida de forma muito individualizada, por um lado, e por outro lado a dois, só deve interessar à própria pessoa e ao parceiro.

Parece-lhe que as novas gerações enfrentam estes problemas de forma diferente das gerações mais velhas?

Sem dúvida. As gerações mais velhas não tiveram qualquer educação sexual, foram completamente deixadas ao abandono relativamente aos seus problemas sexuais e relacionais, muitas pessoas poderão até não ter tido uma vida sexual muito satisfatória, por um conjunto de razões. Hoje em dia, os problemas são muito derivados da insatisfação e da pressão.

 

Como surgiu o seu interesse pelo estudo da sexualidade feminina?

O meu interesse começou pela disfunção sexual feminina, que é a minha principal área de estudo. A maioria dos estudos versa sobre depressão, anorexia, etc. Eu achava tudo isso muito aborrecido, ao passo que os estudos sobre sexualidade são apaixonantes. Ainda há tantas perguntas sem resposta neste campo, nem sequer sabemos bem como defini-lo e a investigação, de forma sistemática, só começou há 10-20 anos. Por isso, decidi que tinha de estudar esta área. Na verdade, é um paradoxo, porque toda a gente fala sobre sexo, mas este ainda é um grande tabu, especialmente em relação às mulheres, e sabemos muito pouco. Foi esta contradição que me cativou, bem como a possibilidade de tentar abrir algum caminho no conhecimento da sexualidade feminina e, em particular, das disfunções sexuais femininas.

A investigadora "exótica"

Ser mulher num mundo, ainda, de homens e investigar disfunções sexuais femininas não é fácil, conta Andrea Burri. "Por vezes, sinto que os meus colegas não me levam a sério. Sou a exótica do meio e sinto algum preconceito em relação ao facto de estudar a sexualidade. Não percebo porquê, pois na verdade uso exatamente a mesma metodologia", afirma.

De resto, como lembra, este é um assunto relevante para as pessoas: "Quando investigamos na área do cancro e descobrimos algo importante, podemos curar e salvar vidas, mas a sexualidade tem impacto no dia-a-dia e na qualidade de vida de todas as pessoas. Por isso, penso que tem a mesma legitimidade para ser estudada e investigada". A psicóloga é uma apaixonada pelo tema das disfunções sexuais femininas e promete "teimar" no seu estudo, mesmo que tenha de lutar contra alguns preconceitos pelo caminho.