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Andreia Carreira

ANDREIA CARREIRA

MÉDICA
 

"Julgamos que os doentes são muito conservadores, mas estamos enganados

 

Andreia Carreira, Médica de Família em Leiria, fez um estudo sobre a abordagem das disfunções sexuais masculinas nos Cuidados de Saúde Primários e concluiu que a maioria dos médicos não indaga sobre a saúde sexual dos seus doentes. Esquecer os eufemismos, falar dos órgãos sexuais como de outros quaisquer e usar alguns "truques" para abrir portas à conversa são as sugestões da médica da USF Cidade do Lis.

Como surgiu o interesse pela temática das disfunções sexuais masculinas?

Esta é uma área muito pouco falada, por isso decidi fazer um trabalho no sentido de perceber se somos só nós, médicos, que estamos inibidos em relação a esta temática ou se os utentes também o estão. Achamos sempre que os utentes são muito conservadores em relação à sua sexualidade e foi muito interessante perceber que porventura os mais conservadores são os médicos. Nós não perguntamos aos doentes sobre a sua saúde sexual porque achamos que eles não querem que o façamos, mas afinal estamos enganados.

 

Os números obtidos por este estudo – 76% dos doentes gostaria que o médico indagasse sobre a saúde sexual, mas apenas 20% já tinha sido questionado nesse sentido1 – surpreenderam-na?

Não, até porque estão de acordo com os dados dos estudos internacionais. É preciso ter em conta que estes 20% correspondem a médicos em contexto de Medicina Geral e Familiar. Claro que em consultas da área a percentagem de médicos que aborda as questões sexuais é maior. São os números que estávamos à espera, mas, por isso mesmo, servem de alerta para percebemos que não se trata apenas de algo que lemos em artigos internacionais; no nosso universo de cerca de 11 mil utentes, isto acontece. Portanto, em Portugal não somos diferentes do resto do Mundo.

Já há doentes que tomam a iniciativa de vir falar ao Médico de Família sobre problemas do foro sexual?

Começa a haver. Com os novos medicamentos e toda a publicidade e sensibilização pública em torno destas temáticas, as pessoas estão a ficar mais despertas. Mas a verdade é que, na maior parte das vezes, se não perguntarmos sobre a vida sexual, os doentes não tomam a iniciativa. Nós podemos utilizar alguns "truques" para facilitar o diálogo sobre estes assuntos, por exemplo deixando um folheto à vista.

 

Outro dado interessante obtido pelo vosso estudo revela que 32% dos inquiridos admite ter um problema sexual mas apenas 27% considera a sua vida sexual insatisfatória.1 Este resultado pode explicar-se por uma certa desvalorização, até por razões sociais e culturais, do papel da saúde sexual no bem-estar geral?

Sim, tem a ver com isso e também com o facto de muitas pessoas acharem que a partir de certa idade é normal deixar de ter relações sexuais. Há mulheres, com 60 ou 70 anos, que têm vergonha de dizer que ainda têm relações sexuais. Pelo contrário, os homens nessas faixas etárias muitas vezes não estão satisfeitos, porque gostariam de ter relações sexuais ou simplesmente de as ter com maior frequência. E, de facto, as pessoas podem ter uma vida sexual nessas idades, tudo depende das comorbilidades, do seu estado de saúde geral e daquilo que é possível fazer para o melhorar.

PERFIL

Andreia Carreira

Formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e está prestes a terminar o internato da especialidade de Medicina Geral e Familiar. Natural de Torres Novas, Andreia Carreira exerce na Unidade de Saúde Familiar (USF) Cidade do Lis, em Leiria, e concilia a Medicina com a sua paixão antiga pela música. “Sou música filarmónica desde os 9 anos, nunca fui capaz de deixar por muito ocupada que esteja”, conta. Ao fim de uma semana de trabalho ruma a Tomar, para dar aulas de música e ensaiar a banda. É maestrina da banda filarmónica nabantina. “Passo a semana inteira a ouvir pessoas a queixarem-se; ao fim da semana preciso de ouvir pessoas felizes para equilibrar. Quando vou para a música, para além de estar feliz, vejo pessoas felizes”, revela.

"Temos de inquirir sobre os problemas sexuais em todas as idades. Há mulheres com 60 ou 70 anos que têm vergonha de dizer que ainda têm relações sexuais"

Quem é que toma mais a iniciativa de falar dos problemas do foro sexual, os homens ou as mulheres?

É variável. Às vezes são os homens que tomam a iniciativa, outras vezes são as mulheres, que tanto se queixam dos seus problemas como dos problemas do parceiro. Quando comecei a implementar os questionários na USF [Cidade do Lis] foi interessante perceber as reações das pessoas. O questionário servia frequentemente de mote para a conversa com o médico. Muitas vezes os utentes não assumem que têm um problema, preferem dizer que querem saber porque conhecem alguém que tem essa disfunção. Mas é muito curioso ver como basta um estímulo inicial para que as coisas comecem a surgir.

 

Na faculdade recebeu formação sobre Sexologia e disfunções sexuais?

Eu recebi, mas infelizmente nem todos os colegas receberam. Havia uma disciplina opcional de Sexologia, que frequentei, mas era uma turma pequena, apenas cerca de 10% dos meus colegas daquele ano frequentaram essa disciplina. Nas restantes "cadeiras" não se abordava muito esta temática.

Em sua opinião, a formação em Sexologia deveria fazer parte do currículo obrigatório do curso de Medicina?

Sim, é fundamental pelo menos aprendermos como abordar o doente com disfunção sexual. Por vezes, somos nós que criamos restrições em relação àquilo de que o doente nos pode falar. Se o doente se aperceber que falamos das questões do foro sexual com a mesma naturalidade com que falamos dos problemas de outro órgão qualquer, irá expor os seus problemas. Se, pelo contrário, percebe que evitamos o tema ou usamos eufemismos para nos referirmos aos problemas e órgãos sexuais, então retrai-se.

 

O que é que mudou na USF Cidade do Lis depois do vosso estudo sobre a disfunção sexual masculina? Como é que os seus colegas reagiram?

Não consigo percecionar se os médicos já indagam mais sobre os problemas sexuais, mas pelo menos ficaram com a noção de que os doentes gostariam que eles perguntassem. Penso que o inquérito foi importante para começar a abrir caminho. Este trabalho também serviu para mostrar que não é apenas em determinadas idades que devemos inquirir sobre a parte sexual, mas em todas as idades. Penso que agora é uma questão de tempo e de as pessoas se irem habituando à ideia de que têm de o fazer sempre, de forma rotineira.

"Por não se sentirem à vontade para falar com o seu médico, por vezes os doentes compram medicamentos na internet e automedicam-se, o que pode ser muito grave"

Espera que o estudo sirva para mudar mentalidades?

Espero que sim, foi esse o objetivo. Temos de estar conscientes que, por não se sentirem à vontade de falar com o seu médico, por vezes os doentes compram medicamentos na internet e automedicam-se, o que pode ser muito grave.

 

É por isso também que importa desfazer a ideia de que estes problemas são para ser tratados apenas pela Urologia ou outros especialistas, e não pelo Médico de Família…

Nós, médicos de família, somos a porta de entrada no Serviço Nacional de Saúde. Faz parte das atribuições do Médico de Família ser o provedor do doente, aquele que o defende e encaminha nas direções mais corretas. Por vezes os problemas sexuais têm necessidade de encaminhamento para Urologia, outras vezes precisam de outro tipo de encaminhamento. Além disso, há coisas simples que podemos resolver nos Cuidados de Saúde Primários sem estar a sobrecarregar cuidados de saúde mais diferenciados, com menos custos para todos e com mais conforto para o doente. É importante os médicos de família estarem despertos para esta área, pois é a estes que cabe diagnosticar e encaminhar, sejam eles ou não a fazer o tratamento.

 

O facto de o Médico de Família conhecer todos os membros da família pode inibir o homem a procurá-lo, quando necessita de ajuda para tratar um problema sexual?

Penso que não. Isso já está ultrapassado, pois os doentes apercebem-se, ao longo dos anos, que aquilo que falam connosco no consultório não sai dali. Cria-se um clima de confiança muito grande, que, para falar de questões tão íntimas, é muito mais importante do que o eventual receio de alguém saber. Claro que também cabe ao médico deixar a "porta aberta" para tal. Por outro lado, temos de ter em conta que, nos problemas sexuais, é preciso considerar o casal. E não há ninguém melhor do que o Médico de Família para conhecer as perceções e queixas de ambos os membros. Temos situações em que um membro do casal considera que está tudo bem e o outro acha que está tudo mal; frequentemente é uma questão de sincronia entre os dois, nem sequer é um problema patológico muito grave.

 

Considera que a Ejaculação Prematura é um problema de sincronia?

Sim. Por vezes, há doentes que se vêm queixar de Ejaculação Prematura e quando aplicamos as escalas e instrumentos ao nosso dispor para aferir o tempo de latência ejaculatória intravaginal (IELT) verificamos que têm um tempo perfeitamente normal. Nestes casos, muito provavelmente há um problema de sincronia, alguma coisa não funciona bem entre o casal.

 

Os estudos dizem-nos que o impacto deste tipo de disfunções sexuais na qualidade de vida das pessoas é muito grande. Tem essa perceção na sua prática clínica?

Sim, sem dúvida. Recentemente uma doente dizia-me que o seu problema de falta de libido estava a pôr em causa o seu casamento. A parte sexual é efetivamente uma parte muito importante de uma relação e, quando essa parte não funciona, outras coisas vão começar a correr mal. Com frequência temos situações de pessoas que estão deprimidas e, quando vamos procurar a causa, percebemos que há um problema do foro sexual que não tinha sido diagnosticado. Nós não sabíamos porque não perguntámos sobre a saúde sexual e, ao mesmo tempo, o doente sentia-se tão mal com tudo o resto que nem dava importância à parte sexual. Às vezes o problema sexual é a causa e não a consequência.

 

1 Carreira A. et al. Does your patient have sexual dysfunction? Published at www.atlasdasaude.pt, Physicians Area, 2015