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Júlio Machado Vaz

Júlio Machado Vaz

PSIQUIATRA E SEXÓLOGO

 

Os homens não foram educados para ter problemas sexuais

 

 

Os tempos são outros e, com três décadas de experiência clínica, Júlio Machado Vaz consegue fazer o retrato dessa mudança na perfeição. Mas se estamos em geral mais disponíveis para falar, sem inibições, de temáticas sexuais, nem todos se mostram preparados para abordar, ou sequer admitir, a existência de uma disfunção sexual. "O ego masculino, muitas vezes, não o suporta", conta o psiquiatra portuense. A mudança faz-se a conta-gotas.

 

Sente que houve uma evolução na forma como as pessoas assumem os temas relacionados com a sexualidade?

Há uma diferença clara, embora, como é evidente, com um efeito de classe social.

Não é justo comparar alguém que vem de uma classe média superior com alguém de um meio desfavorecido. Mas é certo que há uma informação global que nunca sonhámos que pudesse existir. Os media abordam cada vez mais a temática da sexualidade, com vantagens e desvantagens. Digo-o porque, por vezes, fazem-no de maneiras verdadeiramente catastróficas.

As pessoas hoje estão mais à vontade. Com 30 anos de experiência clínica, posso dizer que aquilo que se nota mais é um efeito de género. Há 30 anos praticamente só era procurado por mulheres, hoje em dia o "fosso" estreitou-se muito. Continuam a vir mais mulheres, mas os homens começaram a aparecer, uns por iniciativa própria, outros por pressão das suas companheiras. Diga-se, aliás, que esta situação de os homens virem por pressão, implícita ou explícita, das companheiras é muito frequente na Ejaculação Prematura. Com a libertação das mulheres, é muito mais frequente, hoje em dia, um homem ter uma relação com uma mulher que teve outros companheiros e que, portanto, tem termos de comparação ao nível do desempenho sexual do companheiro. Atualmente, temos mulheres que, sem drama nenhum, dizem que há algo que não permite que a relação erótica seja como desejariam. Também há casos em que isso não é explícito e o homem, que já se apercebia que as coisas não funcionavam muito bem, agora tem receio que aquele problema possa levar ao término da relação e, sendo esta suficientemente importante para ele, procura ajuda.

 

As pessoas com problemas sexuais que o procuram fazem-no porque já tentaram tudo (incluindo "mezinhas" e sugestões que hoje se encontram na internet) ou, pelo contrário, vão como primeira opção ao médico?

Depende do tipo de problema. Na Ejaculação Prematura, é muito mais frequente que aquele homem ou casal tenham tentado tudo, desde pomadas ao pensar em coisas desagradáveis para conseguir um maior controlo da ejaculação.

Numa situação de Disfunção Erétil já não é comum que se tenha tentado tudo, porque não se sabe verdadeiramente o que tentar.

Na Ejaculação Prematura, como as pessoas se apercebem que o problema é demorarem pouco a ejacular, fazem um raciocínio que tem uma lógica intrínseca, mas que infelizmente não funciona. Pensam: "se me conseguir distrair, a excitação é menor e eu levo mais tempo". Isso explica casos em que de um problema desaguamos em dois, pois, ao distrair-se, o homem perde a ereção. E, de repente, temos um homem que, além de Ejaculação Prematura, se vem queixar também de Disfunção Erétil.

 

Outro problema é também, por vezes, a falta de formação dos próprios médicos em matéria de sexualidade…

Exatamente. Esse é um problema muito importante. A maioria dos meus colegas não teve qualquer formação em Sexologia Clínica. Sempre que vou às unidades de saúde familiar (USF) ou aos centros de saúde tenho, na esmagadora maioria das vezes, de começar pelo básico. Começo por falar da função sexual para depois discutir as disfunções. 

Perfil

Júlio Machado Vaz

Conhecido psiquiatra e sexólogo, Júlio Guilherme Ferreira Machado Vaz, 64 anos, é natural do Porto. Licenciado em Medicina e Cirurgia, doutorado em Psicologia Médica, é autor de inúmeros livros e protagonista de outros tantos programas de rádio e televisão onde o amor e a sexualidade são o tema dominante. Professor universitário, tem sido um dos acérrimos defensores do ensino e valorização da Sexologia Clínica na formação médica.

Comunicador nato, no tom bem-humorado e descontraído que o caracteriza ajudou a quebrar muitos tabus com os programas sobre sexualidade que inaugurou na rádio e televisão portuguesas.

O mau entendimento erótico traz reações negativas. É inevitável

É possível traçar um perfil do doente com Ejaculação Prematura?

Não, porque não podemos falar em Ejaculação Prematura, temos de falar em ejaculações prematuras. Há mesmo dois extremos. Existem situações de Ejaculação Prematura em que temos a certeza absoluta que se trata de uma questão biológica; no outro extremo, há casos de Ejaculação Prematura em que, por incrível que possa parecer, o homem antes de ejacular aguenta em coito vaginal 20 minutos.

Poder-se-ia dizer, à partida, que este não é um caso de Ejaculação Prematura, mas é, porque para aquele homem tal constitui um problema. O primeiro exemplo é um caso típico de Urologia, o segundo é um caso típico da minha área, a Psiquiatria. Além destes, há ainda as variações normais. É, por exemplo, o caso de um homem que teve um episódio esporádico de Ejaculação Prematura; aí o médico tem de procurar causas, como o stress ou afins.

 

Falemos então dos casos de Ejaculação Prematura de origem psicológica. O que os caracteriza?

Embora seja preciso ter cautela com as formulações, diria que nas ejaculações prematuras que são sobretudo de origem psicológica há um elemento que está sempre presente – a ansiedade. É raríssimo ter um homem com Ejaculação Prematura predominantemente de origem psicológica que não tenha uma ansiedade evidente; ou então com níveis de ansiedade muito altos que estão mascarados, no caso de pessoas cuja ansiedade não se traduz em sintomas físicos

Depois, há coisas que, infelizmente, a Ejaculação Prematura traz, como baixa de autoestima, baixa da confiança sexual. Se há uma relação, com frequência surgem os ciúmes, a insegurança, etc. Isto porque o mau entendimento erótico traz reações negativas. É inevitável.

 

Este tipo de Ejaculação Prematura tem aumentado, devido às características da nossa sociedade?

Com os níveis de stress da sociedade atual podem imaginar-se as consequências.

Na realidade, por vezes encontramos homens que foram apanhados numa armadilha: pelo facto de terem vidas altamente stressantes, a única coisa que visam é uma descarga sexual; portanto, para estes, quanto mais depressa melhor, até porque não há muito tempo a perder. Depois, quando querem ter tempo, porque a relação é muito boa, pode ter-se estabelecido um reflexo condicionado que já é complicado de inverter.

Com 30 anos de experiência clínica, posso dizer que aquilo que se nota mais é um efeito de género. Há 30 anos praticamente só era procurado por mulheres

O doente que hoje vai ao seu consultório com uma disfunção deste tipo expõe diretamente o problema?

Hoje em dia, por norma, o doente fala diretamente. Antigamente, pelo contrário, era muito frequente não se falar de forma aberta. Aliás, no passado eram até raríssimos os homens com Ejaculação Prematura que procuravam ajuda, o que é compreensível numa sociedade patriarcal. Era muito normal que eles considerassem que não tinham problema nenhum, a mulher é que tinha um problema em atingir o orgasmo. Isso criava, e por vezes ainda hoje cria, situações complicadas na prática clínica. Quando recebo no consultório um casal que vem pedir que eu trate a senhora, que tem dificuldades em atingir o orgasmo no coito vaginal, e, decorridos cinco minutos de consulta, percebo que na realidade se trata de um problema de Ejaculação Prematura, é muito delicado fazer esta passagem, da mulher para o homem. O ego masculino muitas vezes não o suporta. Tive casais que saíram da consulta e nunca mais voltaram, porque o homem não admitia ter qualquer problema.

 

Também é frequente ir apenas o homem à consulta?

Sim. Nesses casos, normalmente o homem expõe o seu problema sem qualquer inibição. Aliás, grande parte admite que sempre foi assim, ou seja, sempre ejaculou precocemente.

 

Ainda encontra esse tipo de doente, que levou muitos anos até ter coragem para pedir ajuda médica?

Sim, sem dúvida. Muitos destes homens foram sempre assim, mas isso não lhes acarretou grandes problemas. Só quando são confrontados com uma reivindicação da companheira ou com os seus receios sobre as consequências da Ejaculação Prematura na relação é que procuram ajuda.

Há homens que só têm Ejaculação Prematura quando estão com a companheira ou companheiro, mas que não têm qualquer problema a masturbar-se, porque a sua Ejaculação Prematura tem a ver com uma ansiedade relacional.

Muitos destes homens, se nunca houve uma queixa, se não gostam da companheira o suficiente para se preocuparem com o seu prazer, não querem gastar dinheiro num médico, onde terão de falar de um assunto que detestam abordar. Os homens não foram educados para ter problemas sexuais.

 

Tendo a Ejaculação Prematura uma componente neurobiológica e uma componente psicológica, normalmente faz o tratamento destes doentes em articulação com colegas de outras especialidades?

Sim, com frequência. Se acho que o adequado para determinado caso é o tratamento medicamentoso, atualmente, com o Priligy®, prefiro encaminhar para um colega urologista, que tem mais experiência com este fármaco. Nos casos em que a pessoa recusa medicamentos ou em que considero que o adequado é terapia comportamental, então recorro a técnicas que já se utilizam há muito e que têm bons resultados, nomeadamente se depois houver uma revisão da terapia, periodicamente. São as técnicas de squeeze, stop and start, etc.

O mais importante é termos a noção de que é fundamental trabalharmos em equipa, porque há casos em que se associa as duas intervenções – medicação e exercícios. O exercício, quando bem-sucedido, em termos psicológicos é um "empurrão" muito positivo para o doente. Aí a pessoa percebe que afinal a situação pode ser modificada.

Tive casais que saíram da consulta e nunca mais voltaram, porque o homem não admitia ter qualquer problema

Internet: amigo ou inimigo?

Nos nossos dias, os doentes vão procurar muita informação à internet. Há já quem lhe chame ir ao “Dr. Google”. No caso da Ejaculação Prematura, a informação disponível é infindável. Há de tudo no ciberespaço, desde conselhos a artigos científicos ou com interesses comerciais e até protocolos com uma espécie de “faça você mesmo”. No entanto, nem todas as fontes são confiáveis. “É magnífico que consigamos, em escassos segundos, ter acesso a milhares de artigos, alguns de elevada qualidade, outros que dão ‘receitas’ verdadeiramente inacreditáveis. Mas quem está muito atrapalhado não tem capacidade de discriminar e tenta”, refere o Prof. Júlio Machado Vaz.

A internet apresenta uma verdadeira “ratoeira” para os homens com Ejaculação Prematura, adverte o professor: “Quem tenta aquelas ‘mezinhas’ e falha fica convencido que todos os restantes conseguiram e só ele é que não, o que em termos psicológicos é muito grave”.“Existe algo muito importante que se chama relação médico-doente. Estes problemas não se tratam assim”, salienta o Prof. Júlio Machado Vaz.