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Maria Paula Fernandes

MARIA PAULA FERNANDES

MÉDICA DE FAMÍLIA
 

O problema sexual causa uma tensão enorme no casal

 

A Dra. Maria Paula Fernandes é Médica de Família na Unidade de Saúde Familiar (USF) Ramada, em Odivelas, e responsável por uma das poucas consultas de Terapia Familiar existentes nos cuidados de saúde primários. Desde há quatro anos, não tem mãos a medir aos pedidos de casais que querem resolver problemas conjugais e do foro sexual.

Quem recorre mais à sua consulta de Terapia Familiar?

No princípio recebia muitos pedidos de pais, para crianças com dificuldades de aprendizagem. Neste momento, tenho muitos casais a pedir ajuda, tanto aqueles com muitos anos de casamento como casais mais jovens. Tem sido curioso notar que, nos últimos tempos, surgem mais pedidos diretos para intervenção ao nível das disfunções sexuais, seja Disfunção Erétil ou Ejaculação Prematura, sobretudo por parte de casais jovens.

 

O aumento deste tipo de pedidos poderá estar relacionado com o facto de as pessoas terem mais informação sobre estas temáticas?

Sim, penso que isso é extremamente importante. Desde o surgimento dos primeiros medicamentos
para a Disfunção Erétil que as pessoas começaram a perceber que há soluções. A Ejaculação Prematura não é uma queixa tão frequente. Normalmente, nestes casos são as mulheres que pedem ajuda e, também frequentemente, consideram que são elas as culpadas. O homem só costuma vir numa segunda consulta.

Ainda é preciso desmistificar este problema?

Sem dúvida. Na verdade, muitas vezes, as situações de Ejaculação Prematura já acontecem há muito tempo, desde a adolescência ou princípio da idade adulta.
O início precoce da vida sexual e o padrão de relações muito rápidas na adolescência acaba, com frequência, por levar a estes problemas, que depois se perpetuam ao longo da vida.

 

Hoje em dia já é possível resolver estes problemas?

Sim, com as armas terapêuticas que estão disponíveis muitas destas situações conseguem resolver-se. No entanto, considero que é sempre necessário trabalhar o casal, porque muitas vezes nestas situações a relação de casal já está muito desgastada; os papéis dos dois estão alterados.

PERFIL

Maria Paula Pina Fernandes

Nasceu em 1955. Em pequena tinha dois sonhos: ser bailarina e médica. Cresceu a dançar e tornou-se médica na especialidade que sempre quis – Medicina Geral e Familiar. “Nunca me vi metida num hospital, eu gosto muito da relação interpessoal, é isso que me motiva”, conta.
Fez parte do primeiro grupo de médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar, em 1982. No dealbar dos primeiros passos da implementação do planeamento familiar em Portugal começou a deparar-se com questões sobre sexualidade e relações conjugais, colocadas pelas suas utentes. Foi trabalhar para a Madeira e aí intensificou-se a necessidade de procurar formação complementar nesta área. Hoje é terapeuta familiar e membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, onde ainda leva os “casos mais difíceis”. Com o aumento de pedidos para intervenção no casal e, ultimamente, na área da sexualidade, decidiu fazer o Mestrado Transdisciplinar em Sexologia. “As relações, as pessoas sempre me apaixonaram”, confessa.
Aos 59 anos Maria Paula Fernandes continua a dançar. “Nesses momentos sinto-me eu”, diz a Médica de Família que também pratica Reiki.

"Ultimamente os casais têm menos dificuldade em falar dos problemas sexuais e em pedir ajuda. Há a perceção de que isso inquina e altera tudo o resto na relação."

O que é preciso fazer para deixar de ser tão difícil falar sobre estes temas?

Creio que é continuarmos a falar, cada vez mais, sobre estes assuntos. As campanhas de televisão e as revistas sobre estes temas são importantes. Muitas vezes os utentes até trazem a revista da sala de espera para o consultório, percebe-se que nos estão a dar a "dica" de que querem falar sobre aquele assunto.

A informação sobre os problemas e também sobre as soluções que já existem é muito importante. Depois, é preciso que haja capacidade de resposta, ao nível das consultas e dos serviços de saúde. O nosso trabalho no Serviço Nacional de Saúde tem sido ótimo em várias áreas, como a mortalidade infantil, perinatal, etc., mas ao nível da literacia em Saúde e da capacitação do doente ainda há muito a fazer. Tem havido uma focalização no tratamento da doença aguda, temo-nos afastado da comunidade. 

 

Por isso tenta sempre trabalhar em conjunto os dois membros do casal?

Sim, quando vem apenas um proponho sempre que na consulta seguinte venha também o outro membro. Isto porque é frequente que o assunto do problema sexual surja no final de uma consulta, em que aparentemente se veio falar de outras coisas.

Como é que procede quando percebe que há um problema do foro sexual mas a pessoa não é capaz de falar sobre ele?

Normalmente tento "puxar" o assunto, quando sinto que é o momento certo. Claro que digo sempre que só falam sobre o assunto se quiserem e se sentirem que ele é importante; mas é muito raro que as pessoas
me digam que não é importante. Ao contrário do que pensamos, as pessoas precisam e estão à espera que nós façamos a pergunta. A iniciativa do médico ajuda muito a "quebrar o gelo".

 

O sexo ainda é um tema tabu, mesmo para os mais jovens?

Sim, ainda é, mesmo para os mais jovens. Continuamos a ouvir mulheres a dizer: "não é que isto me importe, é mais por causa dele". Em toda a minha vida profissional, só tive duas mulheres que pediram ajuda diretamente para resolver o problema sexual, assumindo que isso era importante para elas. Muitas vezes também acontece serem colegas que referenciam, porque percebem que há um problema do foro sexual.

 

"Tudo aquilo que faz parte da sexualidade  como o beijo, o toque, o carinho" deixa de existir e isto cria um vazio na vida das pessoas"

O que significa os papéis no seio do casal estarem alterados?

É como se um tomasse a vez do outro. O papel da mulher, que era tendencialmente mais passivo, está mais ativo. Com a culpabilidade acrescida torna-se ainda mais ativo, no entanto temos de reconhecer que continua a existir o mito de que a iniciativa sexual deve partir do homem e que o papel mais ativo deve caber a este. Ora, quando ele toma o papel mais passivo, está a tomar um papel diferente daquele que culturalmente lhe está destinado. Isto faz com que haja alterações no dia-a-dia do casal. Esta alteração ao nível sexual reflete-se nas restantes áreas da vida conjugal e na forma como cada um exerce a sua função de marido e mulher, é como se o papel de género estivesse alterado. 

 

Quais são os efeitos psicológicos das alterações provocadas pela existência de uma disfunção sexual não tratada?

Psicologicamente, as mulheres ficam mais deprimidas e zangadas, sobretudo nos casos de Ejaculação Prematura. Os homens tendem a assumir mais uma postura de distanciamento e evitamento sexual; tentam por vezes algumas relações extraconjugais, mas isso também não resulta porque o problema não deixa de existir e porque eles começam a sentir a culpa da relação extraconjugal.

É fácil aferir se o problema sexual é a causa do problema familiar ou vice-versa?

Quando a sexualidade funciona bem os problemas do casal não surgem logo. É como se aquela comunicação ao nível sexual, que é boa, atenuasse os problemas do casal. Quando a sexualidade não funciona bem, os problemas do casal surgem mais rapidamente. É uma situação que pode bem ser ilustrada pela figura do icebergue, tudo está interligado. No entanto, nota-se que ultimamente os casais têm menos dificuldade em falar dos problemas sexuais e em pedir ajuda. Há a perceção de que isso inquina e altera tudo o resto na relação.

 

Quando consegue resolver o problema sexual, qual o feedback que recebe dos seus doentes?

Às vezes é um ramo de flores [risos]. Nota-se que as pessoas vêm muito mais serenas à consulta. Há uma diminuição clara da tensão, porque de facto problema sexual causa uma tensão enorme no seio do casal e dificulta imenso a comunicação. Tudo aquilo que faz parte da sexualidade  como o beijo, o toque, o carinho deixa de existir e isto cria um vazio na vida das pessoas.

"Tenho exemplos de casais da minha consulta, em que claramente a resolução do problema sexual evitou a sua separação"

Que mensagem deixaria às pessoas que vivem com estes problemas, por vezes durante anos, e não procuram ajuda?

Diria que não fiquem no silêncio, falem com o Médico de Família. Sei que muitas vezes não é fácil falar sobre estes assuntos com o Médico de Família, porque é um médico que se conhece há muitos anos. Nesse caso, procurem outro médico e falem, mesmo que seja no contexto de uma outra situação ou especialidade. O importante é as pessoas falarem e saberem que há soluções e serviços disponíveis para os ajudar e esclarecer. 

 

Fala-se cada vez mais da ligação entre Disfunção Erétil e doença cardíaca, o que reforça a importância destes problemas serem abordados pelo Médico de Família. Tem encontrado casos destes?

Sim e tem sido muito interessante perceber que, muitas vezes, a existência desta ligação é um fator motivador para os doentes aderirem aos tratamentos. 

Há estudos internacionais que apontam para a existência de um impacto direto das disfunções sexuais no número de separações e divórcios. A sua experiência clínica comprova, ou não, a ligação direta entre estes dois acontecimentos?

Sim, tenho a perceção que a resolução dos problemas sexuais pode evitar a rutura dos relacionamentos. Isto porque, como referi, a disfunção sexual cria outros problemas, outros silêncios e o icebergue vai crescendo.

Tenho exemplos de casais da minha consulta, em que claramente a resolução do problema sexual evitou a sua separação. Tenho utentes que mo dizem diretamente e é muito gratificante quando alguém nos agradece por termos permitido que voltassem a ser uma família. É nessas alturas que percebemos que vale a pena ser Médico de Família.

 

Em sua opinião, por que razão a Ejaculação Prematura não é uma queixa tão frequente nas consultas?

Voltamos à importância da informação pública. No caso da Disfunção Erétil, o assunto está mais falado, as pessoas já sabem que há soluções. Penso que ainda temos de percorrer um caminho semelhante, em relação à Ejaculação Prematura.