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Marta Crawford

MARTA CRAWFORD

SEXÓLOGA

 

"A Ejaculação Prematura faz com que os homens se sintam diminuídos"

 

Vergonha, inibição, frustração são sentimentos comuns a quem sofre de Ejaculação Prematura. Este problema afeta muitos homens e casais, por vezes ao longo de anos, e pode ser responsável pelo fim de vários relacionamentos. A sexóloga Marta Crawford explica como é possível mudar o panorama. Falar do assunto é essencial.

A Ejaculação Prematura ainda é um tema muito silenciado?

É, mas não é só a Ejaculação Prematura, todas as outras disfunções sexuais também. A sexualidade em geral, continua a ser alvo de muita inibição, pelo menos no sentido de as pessoas se exporem abertamentamente. Ninguém, em conversa de amigos, fala sobre as suas dificuldades sexuais, em particular se tem uma Ejaculação Prematura ou uma disfunção erétil. Quem tem problemas silencia a sua voz, não fala sobre eles, porque este é também um problema considerado, pela maior parte dos homens, como algo que vai contra a sua masculinidade. A falta de capacidade de controlo, no caso da Ejaculação Prematura, faz com que os homens se sintam diminuídos, a não ser que não tenham consciência do problema.

 

Essa situação, do homem não ter consciência do seu problema de Ejaculação Prematura, é frequente?

Sim, pode acontecer quando tem uma parceira que não se importa ou que tenha uma excitação rápida e chegue rapidamente ao orgasmo. Nesse caso, a Ejaculação Prematura não se coloca como um problema e só se vai evidenciar aquando da mudança de parceira.

Como é que os profissionais de saúde podem ajudar a quebrar o silêncio em que ainda está envolto o tema da Ejaculação Prematura?

Falando sobre o assunto. Penso que quanto mais se falar no tema, seja os médicos aos seus doentes seja para o público em geral, mais as pessoas se sentirão à vontade para abordar o problema. É aquilo a que, tecnicamente, chamamos ‘dar permissão’ às pessoas; isso fará com que se sintam capazes de falar sobre estas questões e procurem ajuda com maior facilidade. Há homens que passam anos a sentir que têm uma grande dificuldade, que isso está a interferir na sua vida sexual, mas acabam por não se tratar porque têm vergonha de procurar os profissionais de saúde, porque acham que não é suposto ou então porque nem sabem junto de quem procurar ajuda. Perante este silêncio generalizado sobre o tema das disfunções sexuais, as pessoas ficam "presas" entre a noção de que têm um problema e a capacidade de atuação para resolver esse mesmo problema.

PERFIL

Marta Crawford

Figura mediática, Marta Crawford tornou-se conhecida do grande público pelos seus programas televisivos sobre sexualidade. Cronista e colaboradora de vários jornais e revistas da nossa praça, é ainda autora de livros, como Sexo sem Tabus, lançado em 2006, e Viver o Sexo com Prazer - Guia da Sexualidade Feminina, de 2008, e Diário Sexual e Conjugal de um Casal, em 2010, da Editora Esfera dos Livros.

É licenciada em Psicologia, área de Clínica, pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e especializada em Sexologia Clínica pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia. Sexóloga acreditada pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e terapeuta familiar acreditada pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, exerce em Lisboa.

Por vezes, temos situações de mal-estar profundo numa relação, em que se vislumbra já uma rutura do casal, que começaram por uma 'singela' disfunção sexual

Os homens revelam preocupação com o facto de ejacularem prematuramente?

Geralmente, eles têm preocupação quando as mulheres se queixam. Também acontece os homens queixarem-se e revelarem preocupação, mesmo que a mulher diga que é ótimo, porque têm a perceção de que são muito rápidos e isso perturba a sua confiança e autoestima. Muitas vezes, esta última situação pode ocorrer quando a mulher já não sente interesse pelo sexo e, por isso, até lhe agrada o facto de não demorar muito. Quando uma mulher não tem satisfação sexual quer que o sexo seja rápido.

 

Os casais que procuram a sua consulta revelam a ideia de que este é um problema que afeta outras áreas da vida, conjugal e pessoal?

A sexualidade interfere na maior parte das áreas da nossa vida. As pessoas por vezes acham que a sexualidade é uma espécie de ‘caixinha’, que se fecha e fica à parte e não interfere com o resto, mas não é assim. Eu faço terapia de casal familiar e sistémica e terapia sexual, que são coisas distintas. Mas acontece com frequência conjugar os dois tipos de intervenção, para tentar resolver problemas que tenham a ver com disfunções sexuais, como a Ejaculação Prematura ou outras situações, tentando fazer com que haja outra vez intimidade, satisfação, prazer e bem-estar no casal. Por outro lado, o problema da disfunção sexual ativa outras disfunções sexuais, que por vezes resultam em menos interesse, menos frequência sexual, etc., isso faz com que o casal deixe de poder libertar as suas tensões sexuais; ambos deixam de achar que juntos conseguem resolver melhor as pequenas "crises" da vida, deixam de ter momentos de intimidade dando lugar a que surjam os problemas de comunicação e de disputa no casal.

De repente, temos um casal que não se dá bem, em que tudo começa a interferir no êxito da relação, ocorre uma série de alterações na vida do casal porque há uma área da sua vida que não funciona bem. Nesses casos, o problema tem de se resolver sistemicamente. Esta é a razão por que frequentemente faço uma intervenção total; o problema já é tão vasto que não basta apenas resolver a disfunção sexual.

Por vezes, temos situações de mal-estar profundo numa relação, em que se vislumbra já uma rutura do casal, que começaram por uma "singela" disfunção sexual. É uma espécie de 'pescadinha de rabo na boca', em que o casal procura ajuda como último recurso antes do divórcio, mas anda à procura de um milagre.

 

Considera que a ejaculação prematura é um problema psicológico?

A ejaculação prematura apresenta-se como umas das mais frequentes disfunções sexuais masculinas. É uma situação que pode ser causada por vários fatores, como, por exemplo, a hipersensibilidade à estimulação peniana. Mas os fatores psicossociais são determinantes, nomeadamente, a ansiedade ou o medo, as expectativas irrealistas de desempenho, alguma ignorância relacionada com a fisiologia da resposta sexual, falta de controlo voluntário da ejaculação, as crenças e mitos sexuais desadequados, a baixa autoestima ou falta de confiança, etc.

A maior parte dos homens que procuram ajuda tem questões psicológicas, que têm de ser trabalhadas, que devem ser analisadas de forma sistémica, e nessa intervenção é importante utilizar todas as técnicas cognitivo-comportamentais que facilitem a resolução da situação do indivíduo/casal.

Este trabalho tem de ser feito, não só individualmente mas também na relação, com a parceira. Na terapia sexual de casal, procuramos tornar a situação menos ansiogénica, tentamos perceber a qualidade da relação para melhorar o desempenho. Este trabalho, em termos de psicoterapia, é fundamental para mudar a forma como o homem controla a ejaculação e como o casal perceciona a qualidade da sua intimidade sexual. Depois, existem outras formas que também podem ser utilizadas em paralelo, nomeadamente medicação específica para esse efeito, exames específicos e, como se pode perceber, trabalhar em equipa é fundamental nesta área.

O pior que há, em momentos de crise, é o casal estar de costas voltadas e não se entender sexualmente

CRISE E ANSIEDADE: DOIS GRANDES INIMIGOS

Que as pessoas andam mais ansiosas, mercê do quotidiano cada vez mais stressante que vivemos hoje e do contexto económico de crise que o País atravessa, ninguém duvida. Que isso influencia a vida sexual e pode agravar os casos de Ejaculação Prematura é o que explica a sexóloga Marta Crawford: "A ansiedade é um dos fatores que mais afeta o desempenho sexual. No caso da Ejaculação Prematura, é um dos condicionantes para que as coisas se precipitem".

Um número crescente de pessoas anda preocupado com a manutenção do seu emprego ou com a incapacidade para continuar a financiar a sua vida da mesma forma; muitas tiveram de deixar de fazer atividades que eram um escape e uma forma de se libertar do stress do dia-a-dia. "Então, ficam muito mais ansiosas e, com frequência, isso tem interferência na vida sexual", sublinha a especialista.

A solução, diz, pode estar na forma como se encara o sexo: "Se as pessoas conseguirem separar as coisas e procurarem na vida sexual uma forma de aliviar todos os seus stresses, ganham energia para que as outras áreas da vida possam funcionar melhor". Marta Crawford deixa ainda um aviso: "O pior que há, em momentos de crise, é o casal estar de costas voltadas e não se entender sexualmente, julgando que todos os problemas são mais importantes do que 'ser' casal. Aí, começa tudo a desmoronar".