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Palma dos Reis

Palma dos Reis

UROLOGISTA

 

Muitos homens pensam que não há solução para a Ejaculação Prematura

 

 

Desconhece-se ao certo quantos, mas a comunidade médica é unânime ao admitir que apenas uma pequena percentagem de homens com Ejaculação Prematura procura ajuda. José Palma dos Reis, urologista, acredita que tal se deve sobretudo ao facto de muitos doentes considerarem que não existe tratamento. No entanto, a terapêutica farmacológica atualmente disponível "é eficaz e bem tolerada", assevera o especialista.

 

A Ejaculação Prematura é um problema muito silenciado?

É, sem dúvida nenhuma. Os doentes, e as parceiras, ainda falam pouco do assunto. Já está mais na ordem do dia, mas ainda não teve, em minha opinião, o progresso que teve, por exemplo, há uns anos, o problema da disfunção erétil.

Mesmo a disfunção erétil continua a estar subdiagnosticada e nem todos os doentes se queixam mas, em termos de Ejaculação Prematura, ainda estamos bastante atrás.

 

Enquanto médico, como procura quebrar o silêncio dos seus doentes?

Temos de interrogar o doente. Essa é a grande dúvida – os médicos, em particular os colegas de Medicina Geral e Familiar, costumam questionar os seus doentes sobre a sexualidade e, quando o fazem, indagam sobre a eventual existência de disfunção sexual? Isto porque é preciso ter presente que, no homem, há três grandes disfunções sexuais e, na mulher, há quatro disfunções sexuais principais.

No homem, há a disfunção erétil, a disfunção do desejo e a disfunção ejaculatória. No âmbito desta última, existe a ejaculação prematura, que predomina de forma destacada, mas também há a ejaculação retardada e até a anejaculação (ausência de ejaculação). Deste modo, outra questão essencial é perceber se, quando os médicos de família questionam os doentes sobre a disfunção sexual, incidem apenas sobre a disfunção erétil ou abordam todas as restantes. Penso que a maioria interroga mais sobre a disfunção erétil e esquece-se das outras duas disfunções, que são tão ou mais prevalentes do que a disfunção erétil.

O que nos dizem os estudos científicos sobre esta realidade?

Há estudos portugueses e estudos internacionais. Temos um estudo nacional, feito há uns anos, o EPISEX-PT, que aponta para uma prevalência alta, acima dos 10%, de Ejaculação Prematura na população masculina portuguesa. Curiosamente, esta prevalência não é tão alta como a revelada pelo Estudo PEPA (Premature Ejaculation Prevalence and Attitudes), um estudo multicêntrico, multinacional e deveras extenso, envolvendo mais de 10 mil homens, que aponta para taxas de cerca de 20% de Ejaculação Prematura. É de facto uma prevalência muito alta.

 

No entanto, a percentagem de homens que procura ajuda para resolver o seu problema é muito inferior…

Sim, há uma percentagem significativa de homens com Ejaculação Prematura mas, desses, apenas uma pequena minoria procura ajuda.

 

Por que razão isso acontece?

Em primeiro lugar, por embaraço e vergonha. Contudo, esse embaraço e vergonha também se verificam na disfunção erétil e os doentes já começam a procurar mais ajuda. Penso que a grande razão é que muitos homens pensam que não há solução para a Ejaculação Prematura, quando existe. Há uma terapêutica farmacológica bastante eficaz e outras medidas que se podem adotar [para tratar a Ejaculação Prematura].

Perfil

José Manuel Palma dos Reis

Urologista, acumula vários anos de experiência clínica a cargos, publicações e palestras em importantes fora, nacionais e internacionais, da especialidade.

É Presidente do Colégio de Urologia da Ordem dos Médicos e Chefe de Serviço de Urologia no Centro Hospitalar de Lisboa Norte/Hospital de Santa Maria. À clínica associa a docência, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. A formação dos futuros urologistas portugueses é, de resto, uma das suas grandes preocupações. Exigência e qualidade são requisitos por que se bate com afinco, na formação pós-graduada em Medicina. E afirma, com notório orgulho, que Portugal ombreia com os melhores da Europa, no que toca à formação de especialistas em Urologia.

Hoje em dia, havendo um fármaco com indicação específica para a Ejaculação Prematura, será mais fácil o problema ser tratado pelos médicos de família

As mulheres ainda confundem o problema da Ejaculação Prematura com uma atitude egoísta por parte do homem?

Penso que cada vez menos prevalece a "perspetiva egoísta". É verdade que a Ejaculação Prematura para o homem pode ser encarada como um "não problema", na medida em que para ele está tudo bem, para a parceira é que não. Mas cada vez mais temos a noção de que a grande razão não é essa.

Há estudos que mostram que os homens com Ejaculação Prematura sofrem muito com isso. Aliás, há estudos que provam que os homens que sabem e sentem que têm Ejaculação Prematura apresentam não só uma diminuição da sua autoestima no campo sexual, como uma diminuição da autoestima nas outras valências do dia-a-dia. A Ejaculação Prematura afeta a confiança do homem fora do desempenho sexual.

 

Defende uma postura mais proativa do médico junto do doente?

Absolutamente. Julgo que cada vez mais isso acontece, sobretudo no campo da disfunção erétil. Agora importa acentuar este trabalho e estendê-lo às outras disfunções sexuais. O médico deve perguntar, de uma forma genérica e obviamente apropriada e contextualizada no âmbito da consulta, sobre a vida sexual.

Para nós, urologistas, é um pouco mais fácil, na medida em que os doentes vêm à consulta com queixas de um foro próximo. Eu tenho, num determinado ponto da entrevista, uma parte reservada a perguntas sobre a vida sexual, em que faço três ou quatro perguntas, de uma forma muito sistemática, sobre os diferentes parâmetros da sexualidade. Uso uma espécie de "check list", focando aspetos da ereção, ejaculação e desejo sexual; depois tento dar algum tempo ao doente, para que fale.

 

Quando é que a Ejaculação Prematura pode ser tratada nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) ou deve ser encaminhada para a Urologia?

Penso que este é um problema cujo levantamento deve ser feito sobretudo ao nível dos Cuidados de Saúde Primários. Hoje em dia, havendo um fármaco com indicação específica para a Ejaculação Prematura, será mais fácil o problema ser tratado pelos médicos de família nos CSP. A Ejaculação Prematura já antes era tratada pelos urologistas com medicamentos, em utilização off label. Neste momento, havendo um fármaco com uma indicação específica, penso que se facilitará o tratamento. Espero que esta opção terapêutica venha fazer com que os colegas questionem mais os doentes sobre a vida sexual e tratem a Ejaculação Prematura.

Há uma terapêutica farmacológica bastante eficaz e outras medidas que se podem adotar [para tratar a Ejaculação Prematura]

Como se diferencia a Ejaculação Prematura?

Há dois grandes tipos de disfunção ejaculatória: um que predomina largamente, que é a Ejaculação Prematura; e um que é minoritário, a ejaculação retardada (muitas vezes de origem medicamentosa).

Dentro da Ejaculação Prematura, há também dois grupos: a Ejaculação Prematura primária ou lifelong; e a Ejaculação Prematura secundária. No primeiro caso, percebe-se hoje que é um problema que tem um componente neurobiológico de base, portanto estes doentes irão sempre ejacular mais cedo.

 

Quais as opções terapêuticas aplicáveis aos diferentes casos de Ejaculação Prematura?

Na Ejaculação Prematura primária, a abordagem é feita através de terapêutica medicamentosa, juntamente com terapia comportamental, pois as duas intervenções juntas funcionam melhor. De acordo com a Associação Europeia de Urologia, os ejaculadores prematuros primários têm sempre de ser tratados com terapêutica farmacológica. Estamos a falar de homens que, em 90% dos casos, têm tempos de latência inferiores a 1 minuto, o que é manifestamente insuficiente para um ato sexual gratificante para ambas as partes.

Na Ejaculação Prematura secundária, também chamada de situacional, muitas vezes a psicoterapia reverte a situação. Normalmente, este tipo de Ejaculação Prematura está relacionado com uma situação específica de stress, por exemplo com a mudança de parceira sexual, por vezes mais nova. Também acontece quando há uma situação de disfunção erétil latente. Portanto, nas ejaculações prematuras secundárias devemos procurar outras causas e corrigi-las.

Por exemplo, determinadas patologias inflamatórias do aparelho urinário podem condicionar a ejaculação e por isso devem ser tratadas antes. Em suma, é preciso "desmontar" o problema e, se se justificar, até podemos atuar farmacologicamente, numa perspetiva de cortar o círculo vicioso.

 

Os ejaculadores precoces primários, normalmente, chegam muito tarde à sua consulta?

Às vezes chegam muito tarde; alguns nunca chegam a vir e até se afastam completamente da sexualidade, devido ao problema que têm. No entanto, este tem solução hoje em dia.

 

Como classifica as terapêuticas farmacológicas atualmente disponíveis para o tratamento da Ejaculação Prematura?

As terapêuticas farmacológicas são eficazes e seguras, dentro daquilo que é expectável. Sabemos que doentes que partem com tempos de latência muito curtos, mesmo conseguindo triplicar ou quadruplicar esse tempo, nunca terão tempos muito longos. Por isso temos, com frequência, de optar por terapêuticas multimodais, associando terapêutica farmacológica com terapêutica comportamental e até educação sexual. Em muitos casos, conseguimos um tempo de latência suficiente para que o doente tenha uma vida sexual saudável e gratificante.

Um estudo multicêntrico, multinacional e deveras extenso, envolvendo mais de 10 mil homens, aponta para taxas de cerca de 20% de Ejaculação Prematura. É de facto uma prevalência muito alta

Quando tratar a Ejaculação Prematura?

Para o Dr. José Palma dos Reis, a decisão sobre quando tratar um caso de Ejaculação Prematura é simples: “Quando prejudica a harmonia do casal”, afirma. Na opinião do especialista, mais importante do que o tempo de latência intravaginal é a perceção do doente e do casal. “Se o doente tem uma perceção negativa do seu tempo de ejaculação, se isso causa frustração, a ele e à parceira, então deve ser tratado”. A primeira abordagem terapêutica deve ser feita ao nível dos Cuidados de Saúde Primários. Se o médico de família tiver dificuldades em controlar a situação ou dúvidas, deve referenciar para a Urologia.