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Cibersexo: o amor está em linha

 

Cibersexo: O amor está em linha

 

 

A internet reflete, cada vez mais, o mundo em que vivemos e as mudanças sociais vertiginosas a que somos impelidos. Por isso mesmo, o sexo virtual ou "cibersexo" é uma realidade crescente, para o bem e para o mal. Nem tudo o que está associado ao sexo na rede é negativo. Em muitos casos, a internet encurta distâncias e salva o amor.

Vantagens clínicas

A ligação "perigosa" entre infidelidade e redes sociais ou internet é uma das principais responsáveis pela imagem negativa associada ao cibersexo ou ciberamor, mas muitos especialistas apontam vantagens a esta prática cada vez mais na moda. Para pessoas tímidas e com dificuldades de relacionamento interpessoal pode ser muito útil. Há psicólogos que recomendam aos seus pacientes o treino das aptidões de galanteio e "engate" nos fóruns, chats e redes sociais.

Para os jovens que optam pela prática de cibersexo também há vantagens: os riscos de contrair uma doença sexualmente transmissível ou de gravidez indesejada são nulos. Há, desta forma, um espaço de aprendizagem sexual seguro, dizem os sexólogos e psicólogos. O cibersexo, em si, nada tem de patológico e pode até ter um efeito terapêutico positivo em algumas situações. Para algumas pessoas, e não apenas para os adolescentes, a internet é também um espaço de experimentação de práticas sexuais ousadas ou, por vezes, até arriscadas. Como explica o professor de Comunicação da Universidade do Algarve, Bruno Mendes da Silva, num artigo de sua autoria sobre cibersexo, "as comunidades virtuais proporcionam anonimato e privacidade, formando espaços lúdicos ideais para a experimentação sexual. 

Estes laboratórios virtuais possibilitam a recriação, interpretação e aniquilação de todos os tabus". A rede é, assim, um espaço lúdico que permite experimentar novas sensações, que de outro modo muitas pessoas não arriscariam testar. "No cibersexo, o anonimato interativo liberta o ciberamante do seu papel social, possibilitando a  vivência  de  experiências  relacionadas  com a sua personalidade multifacetada. O ciberamante exercita a autoexploração, proveniente de uma necessidade de manifestação livre de estigmas sociais.

Esta prática oferece ao ciberamante uma sensação de controlo da sua atividade sexual no ciberespaço, onde o medo da impotência ou do relacionamento romântico não existe. O anonimato torna-se o veículo libertador dos desejos reprimidos e o ciberespaço o sítio ideal para expor fantasias e curiosidades", explica o investigador algarvio. É por tudo isto que muitos profissionais pedem que não se "diabolize" o cibersexo – estudos dizem que apenas uma pequena parte (menos de 15%) dos utilizadores fazem um mau uso desta prática. Vários estudos indicam que a maioria das pessoas usa as mensagens via chat, redes sociais ou sms para apimentar a sua relação amorosa, inclusive quando em presença do parceiro.

Coisa de adolescentes?

Desengane-se quem pensa que namorar na net é coisa de adolescentes. Os sites e redes sociais dedicados a encontros amorosos estão em voga e florescem de dia para dia, nas mais variadas partes do globo. Há espaços de online dating para todos os gostos: para solteiros, homossexuais ou heterossexuais, para quem procura uma relação fugaz ou algo duradouro, para «encalhados» com mais de 40 anos ou até comprometidos que querem ter uma relação extraconjugal. O negócio não parece ser afetado pela crise, com estudos a revelar que cerca de metade das pessoas solteiras recorre a sites de encontros amorosos para descobrir o amor da sua vida. Os sites profissionais prometem discrição e garantia de encontrar o que procura, graças aos afinados programas de compatibilização de perfis. Depois, uma vez mais as novas tecnologias evitam que se parta para um primeiro encontro “às cegas”. Antes do contacto físico, as pessoas podem, por exemplo, conhecer-se melhor em chats de conversação.

Também para casais maduros

Na vida real, as redes sociais têm permitido o reatar de velhas paixões e, na era da globalização, famílias separadas pela distância física encontram na net a sua sala de estar. Em Portugal, a emigração está a tornar este cenário cada vez mais recorrente e muitos casais recorrem à videoconferência para manter a sua vida íntima. Neste contexto, o cibersexo surge como algo normal, que permite, em muitos casos, evitar o esvaziamento da relação provocado por longos meses de separação física do casal.

De resto, o recurso às novas tecnologias para namorar é cada vez mais comum, mesmo quando existe proximidade física entre os dois membros do casal. Nestes casos, as mensagens românticas ou eróticas trocadas por sms, chat ou qualquer outro meio virtual, servem para alimentar a relação. Vários estudos indicam que a maioria das pessoas usa as mensagens via chat, redes sociais ou sms para apimentar a sua relação amorosa, inclusive quando em presença do parceiro.

O "sexting", a divulgação de conteúdos eróticos e sensuais através de telemóvel, tem ganho terreno em vários países, em particular entre os jovens e adolescentes. Contudo, esta prática tem riscos, pela facilidade de divulgação indevida destes conteúdos (muitas vezes fotos e vídeos íntimos) nas redes sociais e na internet. O fenómeno já deu "dores de cabeça" a várias personalidades famosas.

O reverso da medalha

O cibersexo, em si, nada tem de patológico e pode até ter um efeito terapêutico positivo em algumas situações, como referido. Mas, como em tudo, no sexo virtual também há o reverso da medalha. Se do ponto de vista físico, o sexo virtual é totalmente seguro, do ponto de vista psicológico não se pode dizer o mesmo (ver caixa). A consequência nefasta extrema é a dependência do cibersexo. Quando se torna algo compulsivo, que interfere com as atividades quotidianas da pessoa, estamos perante uma situação de doença. Personalidades impulsivas e/ou introvertidas ou ainda pessoas que tiveram a sexualidade reprimida ou limitada durante grande parte da sua vida parecem ser mais atreitas a este tipo de adição.

O facto da internet ser cada vez mais acessível, barata e permitir o anonimato está a tornar este distúrbio psicológico num problema crescente, em todo o Mundo, de tal forma que alguns profissionais falam na existência de um problema de Saúde Pública silencioso. O primeiro alerta para a dimensão deste fenómeno foi dado em 2000, pelo psicólogo clínico norte-americano Alvin Cooper, já falecido. O seu artigo sobre cibersexo na revista Sexual Addiction & Compulsivity destapou o véu sobre as inúmeras e muitíssimo nefastas consequências deste tipo de adição nos indivíduos dependentes e suas famílias. Segundo os peritos, esta dependência, igual a tantas outras, é difícil de tratar, principalmente porque quem dela sofre resiste a admitir o problema. Para algumas pessoas, (…) a internet é também um espaço de experimentação de práticas sexuais ousadas.

A telepaixão

O  namoro  virtual  tem  sido  objeto  de  estudo  por parte de várias disciplinas, incluindo as ciências da comunicação. Do ponto de vista comunicacional, esta análise é deveras interessante e fornece várias pistas para a abordagem clínica. Os telenamorados não se apaixonam por uma pessoa, mas sim por uma sensação. Quando a relação amorosa é apenas virtual, o indivíduo constrói uma imagem de si e do outro, de tal forma idealizada que esta relação pode tornar-se mais intensa do que uma relação física. "É a relação perfeita, no limiar da fantasia", diz o especialista em comunicação Bruno Mendes da Silva, no seu artigo sobre cibersexo. "Se a paixão limita a capacidade de encontrar defeitos no outro, a telepaixão amplia essa incapacidade, alterando o estado de consciência da pessoa empenhada em viver numa fantasia em tempo real", assinala.

Quem procura o sexo virtual?

Os consumidores de cibersexo são maioritariamente homens, entre os 20 e os 39 anos, quase sempre com habilitações universitárias. A explicação para esta predominância do sexo masculino pode estar relacionada, quer com a subjugação social e cultural da mulher durante muitos anos em relação à sexualidade, quer com o facto de as mulheres procurarem algo diferente dos homens no sexo.

A Unidade de Investigação sobre Sexualidade e Sida da Universidade Jaime I, em Espanha, realizou um estudo sobre esta temática e concluiu que são os homens com outros problemas associados, como baixa autoestima, disfunção sexual e uma imagem corporal distorcida, que apresentam maior risco de desenvolver dependência do cibersexo.