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Quando falar de sexo com crianças

 

Quando falar de sexo com as crianças

 

 

Muitos pais julgam que as conversas sobre sexo e sexualidade são um "problema" adiado, a tratar quando os filhos atingirem a adolescência. Desengane-se quem assim pensa. Especialistas recomendam abordar o tema desde tenra idade e ao longo da vida. Aos dois anos não é cedo de mais.

 

Na fila do supermercado ou à frente de um desconhecido com quem nos cruzamos no caminho. As perguntas mais incómodas das crianças têm o dom de surgir nas alturas mais impróprias. Essa, porém, não pode ser uma desculpa para evitar o assunto e deixá-lo cair no esquecimento. Cada vez mais, os peritos rejeitam a ideia da "grande conversa", que os rapazes têm com os pais e as raparigas com as mães, "quando chegar a hora". Falar de sexo e sexualidade deve ser algo natural, que ocorre ao longo da vida da criança. O "truque" está em dar explicações limitadas, adequadas à idade, que satisfaçam a sua curiosidade e não mais do que isso. Dar explicações longas e informação a mais pode confundir a criança. Não mostrar ansiedade ou estupefação perante a pergunta e responder com calma e serenidade é igualmente importante, na medida em que transmite à criança a ideia de que este é um tema como outro qualquer.

Há quem defenda aguardar pelas perguntas das crianças, há quem sugira que devem ser os pais a dar o primeiro passo. O Professor de Sociologia na Universidade de Washington, Estados Unidos, e coautor do livro "Ten Talks Parents Must Have With Their Children About Sex and Character", Pepper Schwartz, aconselha os pais a incentivar as conversas sobre sexualidade. "Um filho deve saber que os pais gostam deste tipo de conversa. A criança está constantemente a formar ideias na sua cabeça acerca da realidade e nem sempre são corretas. Por isso, precisa de sentir que os pais estão lá para lhe dizer a verdade e evitar problemas". Assim, reações como "Que pergunta é essa?" devem dar lugar a outras, do género "Que boa pergunta!" ou "Ainda bem que me fazes essa pergunta!". Esta postura permitirá à criança ver o pai e/ou a mãe como a pessoa a quem deve dirigir as suas dúvidas sobre sexualidade.

Para a psicóloga e terapeuta familiar Thaysa Viegas, cabe aos adultos tomar a iniciativa: "A temática da sexualidade e do prazer deve ser abordada pelos pais, sem esperar pelas perguntas das crianças. São estes que têm de fornecer aos filhos a tranquilidade que lhes permitirá fazer qualquer tipo de pergunta, obtendo assim informação mais correta do que a que, inevitavelmente, vão obter junto do grupo de pares, que conterá muitas vezes informações erróneas e distorcidas". A também investigadora em Psicologia lembra que os pais (ou os seus substitutos), enquanto figuras de vinculação e identificação, são fundamentais no desenvolvimento da sexualidade da criança e na construção da sua identidade, nomeadamente da identidade de género.

 

Evitar os erros do passado

Para a Dra. Thaysa Viegas é uma diferente cultura de educação das crianças, em relação à temática da sexualidade, que poderá evitar situações hoje comuns. "Trabalhei com jovens, no 9º ano de escolaridade, em formações sobre sexualidade, que não sabiam o que é e onde é o clitóris e que pensam que sexualidade e sexo são sinónimos... Em contexto de terapia familiar, trabalho com mulheres de diferentes idades (dos 20 aos 60 anos) e são vários os casos em que a sexualidade nunca foi plenamente vivida, pelo espectro do pecado e da promiscuidade associados ao prazer. Há mulheres que não conhecem o seu corpo, que nunca se descobriram por medo e vergonha", relata.

"A temática da sexualidade e do prazer deve ser abordada pelos pais, sem esperar pelas perguntas das crianças"

defende a psicóloga Thaysa Viegas

Desde o berço

Falar de sexo com as crianças e adolescentes não irá fazê-los aumentar a sua apetência por experimentar. A evidência científica demonstra exatamente o contrário: jovens a quem os pais sempre falaram de sexo de forma aberta tendem a retardar o início da vida sexual e a usar métodos contraceptivos.

Tudo começa no berço e a simples forma como os pais, ou cuidadores, se relacionam com o bebé e reagem à sua curiosidade natural pode fazer a diferença. "A descoberta dos genitais e a sua manipulação fazem parte da descoberta de si e devem ser encaradas pelos pais com naturalidade", sublinha a Dra. Thaysa Viegas. Do mesmo modo, o famoso "brincar aos médicos" não deve ser repreendido de forma veemente, sem explicação. Deve antes ser enquadrado e servir de mote para alguns esclarecimentos acerca de privacidade e respeito pelo corpo do outro.

Ano a ano

A revista norte-americana Parenting dá algumas indicações sobre o que se pode esperar em cada idade. Aos 2/3 anos é importante usar as palavras corretas, como pénis e vagina, para designar os órgãos genitais. Aos 3/4 anos surge a curiosidade acerca de onde vêm os bebés. Em seguida, vem a pergunta sobre como nascem os bebés, normalmente na passagem dos 4 para os 5 anos. Uma resposta simples e literal é suficiente nestas idades.

 

Pelos 5/6 anos, as crianças terão já curiosidade em perceber como os bebés são feitos e algumas pedem explicações mais "detalhadas". Devem privilegiar-se respostas sobre o processo de formação do ovo, através da junção do óvulo com o espermatozoide, mas uma explicação que permita a compreensão de que há uma interação sexual entre homem e mulher para que tal aconteça deve ser guardada para um pouco mais tarde (6/7 anos), associando a ideia de amor a esse ato.

Aos 8/9 anos a criança tem já, normalmente, informação de outras fontes (escola, televisão, etc.) sobre sexo. Os editores da Parenting consideram que uma criança desta idade consegue compreender uma explicação básica sobre qualquer tópico relacionado com sexualidade. Poderá ser a altura para introduzir alguns temas que permitam a autoproteção da criança, como o que é violação, respeito pelo corpo de cada um, etc...

Aos 9/10 anos os pais devem conseguir falar sobre qualquer temática sexual e começar a preparar os filhos para as mudanças do corpo. A partir dos 12, a criança começa a formar as suas próprias opiniões, pelo que é aconselhável que os pais estejam atentos e tentem perceber se os filhos precisam de mais informação ou de um melhor enquadramento de alguns conceitos. Contudo, é fundamental que não adotem uma postura de censura em relação às opiniões dos filhos, pois isso poderá fechar a porta a futuras perguntas.

Pelos 5/6 anos, as crianças terão já curiosidade por perceber como os bebés são feitos e algumas pedem explicações mais "detalhadas"