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Sexo e não só!

Dra. Rita Castanheira Alves

 

Sexo e não só!

 

 

Acompanhar, responder e esclarecer*

Para alguns adultos é mesmo embaraçoso falar de sexo, seja quando for e com quem for. É um assunto tabu nalguns casos, nunca fez parte do vocabulário do crescimento de alguns de nós, era até considerado errado e associado a muitos perigos e a "disparate", pelo que não nos habituámos a falar sobre sexo. No entanto, os pais devem estar atentos ao tema, ajudar e acompanhar os filhos desde pequeninos, mesmo quando se fala de questões sexuais.

 

Dra. Rita Castanheira Alves,

Psicóloga Clínica Infantil e Juvenil
e de Aconselhamento Parental

Vai perguntar-me coisas difíceis…  Vou fingir que não ouvi e ele esquece-se…

 

Sabe-se, hoje, que as melhores decisões são tomadas com base na informação necessária, através de uma atitude consciente, informada e responsável. Por isso, é altura de os pais, pouco ou nada habituados a falar de sexo, o fazerem. Não será, talvez, o momento mais descontraído e tranquilo para alguns pais e nem sempre será fácil disfarçar a expressão de embaraço ou surpresa, perante uma pergunta difícil de um filho pequeno ou a necessidade de introduzir o tema da sexualidade com filhos mais crescidos, a entrar na puberdade e a despertar para a sexualidade. 

É preciso lembrar que os pais não serão a única fonte de informação, já que os filhos têm outros adultos significativos na vida, com quem poderão sentir-se mais à-vontade para conversar e tirar dúvidas. Fazem-no também no grupo de amigos. Além disso, com o avanço tecnológico que se verifica atualmente, o acesso à informação é fácil e imediato — a informação é muita, não significando, no entanto, que seja sempre de qualidade, clara e esclarecedora. Contudo, os pais poderão ser excelentes ajudantes nestes temas, quão mais disponíveis e preparados estiverem. O facto de abordarem o tema contribui para uma atitude tranquila dos filhos perante o sexo. Se o pai/mãe fala sobre sexo, então é porque é suposto o jovem também poder pensar, refletir e conversar sobre o tema… e não fugir dele.

Mas eu não sei dar-lhe uma aula sobre o sistema reprodutor. Vou falar de quê?

As crianças fazem perguntas que embaraçam os pais, frequentemente porque nos põem, enquanto adultos, em contacto com os nossos preconceitos, tabus e vergonhas. É uma excelente altura para vencer algumas dessas vergonhas e descomplicar um bocadinho. Talvez ajude também os pais.

As respostas às perguntas devem ser sempre dadas, desde que a pergunta exista. Esta regra ajuda a saber quando dizer e o que dizer. As respostas deverão ser sempre adaptadas à idade e ao nível de desenvolvimento. Nos primeiros anos de vida, as respostas devem ser curtas, simples e responderem, apenas, ao que foi perguntado. A criança ainda não quererá saber mais. Garantir que ela tem uma boa relação com a sua sexualidade desde os primeiros anos é importante e será o caminho para que consiga, ao longo da vida, ter um desenvolvimento sexual equilibrado e saudável e ir falando, com os pais, sobre o tema.

As crianças fazem perguntas que embaraçam os pais, frequentemente porque nos põem, enquanto adultos, em contacto com os nossos preconceitos, tabus e vergonhas.

Mais importante do que ajudar o seu filho a conhecer toda a anatomia dos aparelhos genitais feminino e masculino será a disponibilidade para escutá-lo, esclarecê-lo e focar-se nas questões psicológicas e emocionais associadas ao sexo, bem como nos cuidados a ter. 

Dicas para falar com os miúdos pequenos sobre sexo:

• Use frases curtas, simples e fáceis de compreender;

• Não entre em muitos pormenores ou explicações;

• Não desvie a conversa;

• Recorra a livros sobre sexualidade indicados para crianças pequenas;

• Recorra a desenhos animados ou outros programas existentes sobre sexualidade;

• Responda a todas as perguntas que lhe forem feitas, adequando as respostas à idade e ao desenvolvimento;

• Não introduza o tema; espere que seja a criança a introduzi-lo;

• Ainda que embraçado, aja de forma natural. Afinal, o sexo fará parte da vida do seu filho.

Mais tarde, poderá ser importante acrescentar mais informação, ser mais pormenorizado nas explicações. No caso dos adolescentes, é possível que não façam perguntas, mas isso não significa que não tenham dúvidas, preocupações e curiosidades. Nessas situações, poderão ser os pais, numa conversa calma e com privacidade, a introduzir o tema, de forma natural, dizendo que pode ser embaraçoso falar de sexo com os pais, mas que estarão disponíveis para ajudá-lo a perceber o que for possível.

Quanto maior for a cumplicidade criada entre pais e filhos, mais fácil será abordar estes temas difíceis. Ou seja, é essencial que a comunicação seja cultivada desde cedo e abarcando os mais diversos assuntos. 

Quanto maior for a cumplicidade criada entre pais e filhos, mais fácil será abordar estes temas difíceis!

É essencial, desde cedo, promover, não só no que respeita ao sexo como a todos os outros assuntos, o respeito por si próprio, a autotolerância, a capacidade de se proteger e a liberdade de pensar por si e ter as suas próprias escolhas. Quanto mais assertiva a criança for, melhor lidará com o seu desenvolvimento sexual e possíveis relações. Consequentemente, melhor será o impacto emocional das experiências e vivências sexuais nele próprio.

Mais do que saber como é constituído um aparelho genital, o papel dos pais é ajudar os filhos a tomar decisões conscientes, a saber dizer não, a reconhecer o que é o abuso sexual e a consultar-se internamente para poder decidir o que quer e quando quer.

Estes princípios e competências podem ser desenvolvidos desde sempre e quer seja a nível geral, na pré-adolescência ou adolescência, há que focar os jovens relativamente às escolhas e decisões no campo da sexualidade. Paralelamente, na adolescência, o conhecimento das DST (doenças sexualmente transmissíveis) e das formas de prevenção são essenciais para a tomada de decisões de maneira consciente e informada. 

"O papel dos pais é ajudar os filhos a tomar decisões conscientes, a saber dizer não, a reconhecer o que é o abuso sexual e a consultar-se internamente para poder decidir o que quer e quando quer"

Acima de tudo, os pais devem ajudar o filho a expressar dúvidas, receios, curiosidades e preocupações e acompanhá-lo, empatizando com as suas questões e ajudando-o a pensar sobre as mesmas. Devem transmitir-lhe, sempre, que as decisões sexuais são só dele e que, acima de tudo, deve sentir-se bem com o que está a fazer.

 

Dicas para falar com pré-adolescentes e adolescentes sobre sexo:

 

 

• Se nunca falaram sobre o tema, introduza-o calmamente, sem entrar em demasia na privacidade do seu filho;

• Aja naturalmente e com tranquilidade, mesmo se o seu filho começar a dizer: "Que nojo, que vergonha estar a falar disso contigo";

• Mostre abertura para que o seu filho, perante preocupações, dúvidas ou receios, sinta que em casa pode ser ajudado e respeitado;

• Sirva-se de exemplos gerais, para normalizar possíveis reações que o seu filho possa ter;

• Garanta que o seu filho tem acesso a material informativo de qualidade acerca do tema;

• Dê-lhe acesso a livros para adolescentes que se debrucem sobre dúvidas, preocupações, receios e curiosidades de todos os adolescentes;

• Fale sobre a temática da orientação sexual, garantindo que está a ajudá-lo a desenvolver uma atitude de tolerância e livre de preconceitos. Se for o caso, estará a ajudar na preparação para a sua própria aceitação;

• Demonstre-lhe que tem uma mente aberta, disponível e capaz de o ajudar. Mesmo que não tenha vivido essa experiência com os seus pais, mostre-se disponível para aprender a fazê-lo com o seu filho;

• Dê-lhe privacidade, no quarto e na casa de banho, incutindo o hábito de bater à porta antes de entrar;

• Nunca partilhe estes assuntos com outros elementos da família ou amigos, especialmente na presença do seu filho. Ele poderá sentir-se demasiado embaraçado e desrespeitado.

É preciso lembrar que os pais não serão a única fonte de informação, já que os filhos têm outros adultos significativos na vida