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Sexo na cidade e no campo

 

Sexo na cidade e no campo

 

 

Não estão muito longe os anos em que as diferenças entre o Portugal rural e o Portugal urbano eram evidentes, mesmo abissais em alguns casos. Da forma de vestir aos hábitos e mentalidades, as clivagens eram claras. Mas a globalização e as novas tecnologias estão a transportar para a caixa das memórias o imaginário da aldeia da roupa branca. Será que ainda se conhecem diferenças? Parece que sim.

 

Cidade, símbolo de modernidade, espaço de encontro de tantas gentes diferentes. Aldeia, espaço de tradições, de relações intracomunitárias estreitas, muitas vezes impositoras de rígidos moralismos. O que distingue, hoje, quem vive na cidade de quem vive no sessego da aldeia? O que mudou no plano dos valores, das conceções e da moral sexual? Dulce Morgado Neves, socióloga, estudou 20 linhagens familiares, 16 de contexto urbano e 4 de contexto rural. Como nos explica, uma das grandes diferenças entre os dois contextos geográficos é o tempo da mudança intergeracional. Se na cidade a grande alteração em relação aos comportamentos e atitudes da esfera sexual se viveu da primeira geração (representada por homens e mulheres nascidos maioritariamente nas décadas de 1920 e 1930) para a segunda geração (pessoas nascidas sobretudo nas décadas de 50 e 60), na aldeia a "rutura" faz-se agora, com a atual geração jovem (nascidos na década de 1980). "Enquanto nas famílias de Lisboa as grandes mudanças e ruturas ocorriam entre a primeira e a segunda geração, nas famílias das Terras de Basto a análise veio revelar uma tendência para a reedição de perfis normativos face ao género e à sexualidade entre a primeira e a segunda geração de entrevistados, sendo a geração mais nova aquela que protagoniza as maiores ruturas face aos modelos familiares herdados", afirma.

Nos discursos da primeira e da segunda geração de entrevistados, em particular nas mulheres, podemos de facto associar os contextos de interioridade e de ruralidade a valores mais conservadores face à sexualidade e aos papéis género. Na geração mais nova de entrevistados, sem embargo, essa associação perde força

acrescenta a investigadora

AS DIFERENÇAS ESBATEM-SE NA GERAÇÃO MAIS JOVEM, ASSOCIADAS AO ALARGAMENTO DAS OPORTUNIDADES ESTRUTURAIS VERIFICADO NAS ÚLTIMAS DÉCADAS EM PORTUGAL.

O acesso generalizado à escola contribuiu para diminuir clivagens sociais também no que respeita à sexualidade e às relações de género. Depois, outros fatores, como a melhoria geral das condições socioeconómicas e a profusão das novas tecnologias de comunicação, ao potenciarem o acesso à informação independentemente dos territórios geográficos em que nos encontramos, vêm igualmente contribuir para relativizar as tradicionais diferenças.

Hoje, mais do que a cidade, a aldeia é um meio transformado. Nesta mudança há de facto um elemento virtual com peso determinante. Pode dizer-se que primeiro vieram estradas que ligaram sítios antes quase inacessíveis, depois a "caixa que mudou o mundo". Mas, o que realmente terá encurtado distâncias e esbatido as diferenças entre a aldeia e a cidade terá sido a globalização e o advento das novas tecnologias,
com a internet a abrir portas a um imenso mundo de informação sem fronteiras. Em segundos, com um simples clique, a informação de um blogue, um "tweet" ou um "share" chegam a qualquer parte do país, independente do contexto sociogeográfico. Basta estar ligado. Por tudo isto, as diferenças já não são, hoje, tão evidentes. Normativizaram-se hábitos, gostos, costumes. A internet e o telemóvel são os "símbolos" inequívocos dos jovens, mas há também mais velhos que não os dispensam, seja na cidade ou na aldeia.

Mulheres lideram mudança

O mais curioso é que, dizem os estudos, na esfera das mentalidades, são as mulheres quem lidera a mudança. Com a sua pesquisa de Doutoramento, Dulce Morgado Neves concluiu que o fenómeno de rutura com o modelo normativo vigente, no que respeita à esfera sexual, "é especialmente evidente" no caso das linhagens familiares femininas. Tal é patente, por exemplo, no facto de os rapazes se iniciarem mais cedo na vida sexual, mas ser no sexo feminino que se notam mais diferenças, quando se comparam diferentes gerações. De acordo com dados disponíveis para a uma amostra representativa da população portuguesa, em média, os rapazes têm a primeira relação sexual pelos 16,8 anos enquanto as raparigas declaram iniciar a sua vida sexual um pouco mais tarde, aos 17,8 anos. 

No entanto, nos homens, a idade média à primeira relação sexual pouco tem variado ao longo das últimas cinco décadas. Já nas mulheres, embora sem mudanças abruptas, nota-se uma evolução para um início da vida sexual mais precoce. Neste aspeto, as diferenças entre meios rurais e urbanos ainda se notam, com as raparigas dos meios urbanos a "liderarem" a mudança. "No caso das nossas jovens entrevistadas, constatámos que eram as raparigas com idades superiores a 25 anos, de perfil urbano e profissionalmente ativas, aquelas que, entendendo a sexualidade como reflexo da autonomia e emancipação feminina, declaravam ter um reportório de experiências mais alargado", conta a socióloga.

Poucos conhecimentos

 

Com a internet, o espaço onde nos encontramos perde relevância. Mas, se as diferenças no acesso à informação deixaram de estar tão linearmente associadas à localização geográfica, tal "não quer dizer que o conhecimento sobre práticas sexuais seguras seja o mesmo em todos os territórios", adverte Dulce Morgado. A sua afirmação é de resto corroborada por vários trabalhos de investigação. Um estudo sobre educação sexual na adolescência, realizado pela enfermeira Rita Alexandra Rosa e pelo professor da Escola Superior de Saúde de Setúbal, António Manuel Marques, envolveu 418 alunos a frequentar o 9.º ano em escolas de meios urbanos e rurais. Nesta investigação publicada em 2012, os autores admitem que a globalização, sobretudo na esfera dos conhecimentos, é um fenómeno com impacto generalizado, mas a cultura local também tem implicações na forma de ser e de pensar dos indivíduos. Os resultados, neste aspeto, não surpreendem, mas noutros até se revelaram inesperados.

Este e outros estudos tornam claro que a acessibilidade a mais informação não significa mais e melhor conhecimento, nem tão pouco comportamentos e atitudes sexuais seguras e responsáveis. E nesta passagem da teoria à prática a equação parece pender em desfavor dos jovens rurais. "O número médio de identificações corretas realizadas pelos adolescentes dos meios rural e urbano nas representações da anatomia dos aparelhos reprodutores é significativamente diferente. Os alunos de origem urbana realizam, em média, mais identificações corretas (8,45) do que os de origem rural (7,17), evidenciando que os primeiros terão um nível superior de conhecimentos do que os segundos. Quanto aos conhecimentos sobre contraceção e IST [infeções sexualmente transmissíveis], os alunos de origem urbana acertam, em média, em mais afirmações (14,06) do que os de origem rural (13,46), com valores tendencialmente significativos", constatam os investigadores.